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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Melancolia (2011)




Lars Von Trier passou por um período de depressão. Ele descobriu, no fim dos anos 90, que não era filho de seu pai pela própria mãe em seu leito de morte. Isto o tornou um dos melhores cineastas da atualidade, porque é sempre sobre a tristeza que ele trata seus filmes. Ok, você tem aquele movimento fajuto chamado "Dogma 95" criado por ele, que não significa absolutamente nada, mas você tem "Dançando no Escuro", "Onda do Destino" e o sensacional "Dogville". É um diretor de respeito.

Melancolia é mais um exemplo disso. A fotografia é sensacional e a tristeza aqui é novamente representada nas personagens femininas. Justine, de Kristen Dunst, sofre de depressão. É uma mulher que não sabe lidar com a felicidade, e, logicamente, estraga tudo. Pessoas depressivas são egoístas porque gostam de contagiar a todos com sua tristeza. Justine é uma mulher que existe para ferir as pessoas para aproximá-las dos seus sentimentos.  É aquela que quer ser cuidada, odiada, e desprezada. Ela não consegue atingir seu pai e nem sua mãe.E a primeira parte do filme, que talvez nos faça odiá-la, num primeiro momento, nos faz entender uma visão sobre  com é  mais fácil lidar com o fim do mundo sendo ela.

Charlotte Gainsbourg, pra mim, muito melhor atriz que a Dunst, é a nova preferida do Trier, porque é o segundo melhor papel que ele dá a ela. Vive a  frágil, porém, otimista, Claire. Mulher que vê as pessoas em volta e faz de tudo pra tornar sua irmã feliz, mas naquela forma, um tanto hipócrita, de querer conduzir a situação, modificando as pessoas ao seu modo de lidar. Ela sabe do fim do mundo, mas tenta acreditar que há chances de sobreviver. Claire é aquela que quer estender a mão pra salvar as pessoas. Justine quer aproximá-las pro seu fundo do poço.

O filme trata de um planeta que vai se chocar com a Terra. Na primeira parte, vê-se um casamento dos sonhos dado por Claire a Justine. Ela estraga tudo, claro. Os primeiros 10 minutos de filme são imagens em câmera lentíssima, com uma fotografia sensacional, que mais parecem quadros em movimento, seguidos da história, com o casamento de Justine e seus altos e baixos, e pelo início do seu surto. Neste momento, vemos que a pessoa mais sincera é a sua mãe, que, mais tarde, percebemos ser versão madura da própria Justine. O filme passa um pouco arrastado nesta parte, porque você precisa se reiterar ao sofrimento da Justine, a personagem mais representativa do filme.

A segunda parte, trata da visão da Claire. Apavorada, pelo fim do mundo, ela busca na esperança uma forma de se firmar e seguir adiante. Ela NÃO ACEITA a versão científica. E, na visão do diretor, é uma forma do ser humano se enganar quanto ao exato, sempre se conformando com o seu destino ou quanto ao que os outros dizem. Seu marido é astrônomo e tenta convencê-la de que há sensacionalismo e propagação do terror em cima de uma possível catástrofe que, pelos seus cálculos, não ocorreriam. E aqui, insere-se toda e qualquer referência absurda sobre totalitarismo, nazismo a qual o Lars foi relacionado por suas declarações no Festival de Cannes. Nunca houve qualquer indício disso em sua obra. Muito pelo contrário.

Depois de apresentadas as personagens, vemos como elas lidam com a catástrofe. O filme não tem uma história linearmente contada. Centra-se no sofrimento das personagens e nos diálogos, a princípio, desconexos. Não é lá muito fácil de assistir. É como ler um texto prolixo e subjetivo: ou você embarca na onda do diretor e passa a analisar as coisas bombardeadas de frases soltas; ou, você apenas vê o desenrolar, pra depois organizar tudo e você mesmo sequenciar os fatos.

É marcante no cinema de Lars o drama sempre contado a partir de personagens femininas. Talvez, isso tenha a ver com a sua mãe e sua depressão, talvez, seja porque elas tenham maior potencial dramático,mas que este seja um dos melhores diretores, com os melhores filmes das ultimas duas décadas, não há menor dúvida.

*Este filme se deve todo a ele.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Além da Vida

Clint Eastwood fez um filme sobre a morte. Nos seus 80 anos de idade, começou a pensar a respeito e resolveu tratar da morte a partir dos vivos, das experiências quase-morte, da maldição dos médiuns e das pessoas que precisam se comunicar com os que já se foram. É um filme que, segundo ele, poderia ter sido realizado aos seus 30 anos. Certamente, ele poderia ter começado com um filme assim.

A história, na verdade, são três que se entrelaçam. 3 pessoas que vivem em países diferentes. Marie está na Tailândia e presencia um tsunami, é arrastada pelo mar, (quase) morre, mas é ressuscitada. George é médium, que quase morreu quando criança, mas foi trazido de volta, e desenvolveu o "dom" de se comunicar com os mortos, algo que ele renega. E, por fim, Marcus, que perde o irmão gêmeo Jason atropelado,mas não consegue se desvincular da presença dele.

Acabou a sinopse, acabou a história. O que Clint faz no filme, é apresentar as personagens e a forma como elas lidam com a mudança em suas vidas. De forma superficial e forçada. Filme clichê, daquela visão da morte como visualização dos vultos contra a luz e da não aceitação da perda dos entes queridos. E nisso, soma-se as desgraças dos personagens  secundários ao lado dos protagonistas. Quem mais comove é o Marcus. O ator, uma criança, de longe, é o que tem a maior dramaticidade e história dos três. É o que traz um certo propósito, já que ele busca se comunicar com irmão, e, neste caminho, passa por diversos charlatões, etc. Marie, jornalista rica, bem sucedida, não tão sortuda em relacionamentos, tenta escrever um livro sobre sua experiência, atordoada pela situação pela qual passou, procurando explicação científica,em que todos pensam que ela é louca. Veja você que a experiência dela é a mesma contada zilhões de vezes. O filme se passa nos dias atuais e o diretor quer que você acredite que é algo novo.

É um filme com temática batida, mal resolvido, o entrelaçamento das histórias* se dá de forma tão forçada como foi a quase morte da Marie**. É sem dúvida o pior filme da carreira do Eastwood. Não chega a ser o pior da vida de ninguém, porque você realmente vai gostar do Marcus.

Apenas, se assistir, não esqueça que ele fez "Mundo Perfeito",  "Sobre Meninos e Lobos" e "Gran Torino". Só por esses filmes, você nunca vai tomá-lo como diretor mediano, apesar deste filminho medíocre. E pensa que ele está velhinho, sensibilizado pela morte, que , na verdade, gostaria de ser novato, fazendo filme digno de iniciante.Talvez, no tema morte, seja, porque os filmes que ele fez sobre a vida são maravilhosos.




*Eles se encontram em Londres numa feira de livros e palestras sobre  o tema. Marie está lançando o livro, rola um climinha com o George, aí aparece o Marcus, George é perseguido. Algo assim, que, nas duas horas de filme, ele realiza em 15 minutos.

** A Marie, durante o tsunami,  se agarra a um tronco, e a carroceria de um carro se choca com ela de costas, ela desmaia. Aí, é salva e fazem respiração boca a boca, como se fosse afogamento, e ela até cospe a água dos pulmões.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sobre Alice


Primeiro, que este filme é um tapa na cara das pessoas românticas. Uma alegoria do amor e dos relacionamentos, que, quando tratados como são viram mentira. E é sob o ponto da Alice que você deve assistir ao filme Closer. É da Natalie Portman a melhor personagem e a melhor interpretação. Closer tem muito fãs e muitos odiadores, o que faz dele um filme cult, e, apartir de agora,, aviso que tem spoilers, apesar de que um filme já com seus sete anos, se você não o viu, não será por causa de um post que vá deixar de ver. E muitos que viram não entenderam. Então, só leia se você assistiu.

Bom, a primeira cena da Alice é o momento em que ela vê e se apaixona pelo Dan. Ela se inventa pra ele. Conduta amorosa, lembra?, o amado fica acima de você próprio. Ela tenta impressionar o Dan porque ela é uma garota comum. Ela inventa o nome, inventa que é stripper. E não é moralismo, porque na cena do Larry, quando ele pergunta pelo nome dela, ela fala que é Jane Jones. Ele não acredita porque nenhuma stripper usaria o nome verdadeiro, por questão de problemas com a lei. A Alice que o Dan pensa que conhece é inventada. Quando eles terminam, ela tenta ser a garota que o Dan pensava que ela fosse.

O Dan amava a Anna. Abandonou a Alice pra ficar com ela. É a segunda parte do filme. A Anna percebeu de cara, e pergunta o porquê de ele estar desperdiçando o tempo dela. Ele fica abobalhado pela Anna e a Alice percebe e sofre, e se expõe pra Anna. O que a Anna retrata é o amor não correspondido da Alice pelo Dan. E eles vão pra exibição da Anna, quando a Anna e o Dan começam o caso, traindo seus pares, e termina com o abandono. A Alice sabia que o Dan gostava da Anna,mas preferia não ter que encarar. Ela diz no dia da exibição "Estou esperando você me deixar". Ela pensou que poderia dar certo porque a Anna se casou com o Larry e abandonou o Dan*. Ela pensou que poderia amar pelos dois.-

O Dan procurou pela Alice após chorar querendo a Anna de volta pro Larry. A Anna escolheu o Larry porque ela se julgava não merecedora da felicidade. Ela quis o cara ideal pra se construir uma família. Alguém que não precisasse dela. E isto que fez com que os dois homens se apaixonassem por ela. Ela não se colocava abaixo deles. A Anna não sabia amar. Ela era extamente o oposto da Alice. Por isso , ela era livre. Por isso ela escolhe o Larry. E, sim, no final do filme, ela está grávida dele.

Temos o Larry na boate de striptease. O Larry tenta manipular a Alice a dizer que ela sofre como ele. Que os dois compartilhavam da mesma dor da traição. Ele tenta comprar a identidade da Alice. E não consegue, porque ela estava exposta ali. Ela preferia tirar a roupa a mentir. E você fica na dúvida se ela deu pro Larry. NÃO, ela não deu. Mas, pra se vingar do Dan, o Larry plantou que sim.

Por ultimo, a última cena. Ela e Dan comemorando o aniversário de relacionamento. Ele indagando se ela deu pro Larry, ela negando. Ele sai exigindo a verdade. Quando volta, ele aencontra disposta a deixá-lo. E ela tenta magoá-lo, dizendo que transou com o Larry e ele diz que sabia e a perdoava. E ela fala que não contou porque sabia que ele não iria perdoá-la. Ele diz que já havia feito. Nesta hora, se vê que, para o Dan, a Alice nunca existiu. Se não fosse a mentira dela, que fez com que ele se ineressasse por ela, eles não teriam nada. E aí que o Dan se dá conta de que ela não existiu, quando vê o nome Alice Ayres, salvou três vidas, numa placa em homenagem a pessoas que morreram salvando a vida de desconhecidos.

*Aqui cabe uma observação: no término, da ultima cena, acontece uma coisa que o Dan fez com a Anna, quando eles terminaram e ela preferiu o Larry e se casou. Ele dá um tapa na Alice, quando ela o abandona. E a Anna, como Larry, fala "já passei por isso antes".Ou seja, no contexto em que o Larry humilha a Anna, numa comparação entre ele e o Dan. Ao ser perguntada porque ela estava vestida, se percebe que ela apanhou antes do Dan.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Estamira (2006)





Há muito tempo, eu queria falar desse filme. Estamira é um documentário brasileiro sensacional, que trata de um dos temas mais interessantes que eu tenho estudado. Foi um filme polêmico, muito criticado quanto à ética, por ter como protagonista uma esquizofrênica e expor sua vida para o mundo. Isso é algo de que eu discordo totalmente, porque, antes de ser um filme que trata de um doente, é um filme que trata da forma mais respeitosa possível um assunto que é bem mitificado pelos filmes de terror da atualidade. O fascínio das pessoas pela esquizofrenia se dá de forma negativa, porque acham o máximo ver reproduzidas as visões paranóicas, os pesadelos, a violência do tratamento com eletrochoques, mas, da doença em si, da informação a respeito dela, e, principalmente, da ética médica atual para tratá-la, poucos sabem. O esquizofrênico, vulgo, louco, é marginalizado. Ele não desperta sensibilização dos outros e quem assiste "Estamira" não tem como não se emocionar com a retratação (a fotografia do filme é sensacional) do drama da protagonista.

Estamira era uma mulher religiosa que se casou duas vezes e teve três filhos. Ambos os homens que teve não a respeitavam como mulher. E, após a morte do seu segundo marido, um italiano, ela começou a questionar a vida, Deus, e o desrespeito que os homens têm entre si, a partir de sucessivos atos de violência pelos quais passou. Você vê sofrimento na forma dela se expressar e do quanto ela vê como ridícula a submissão do homem, tão esperto e astuto, a um Deus, que mais parece o trocadilo, a inversão dos seus próprios valores usada para domesticar, escravizar e abdicar da sua condição de ser pensante e tão superior aos outros animais.

Depois de ter sido internada num manicômio, ela teve que se submeter às medicações. E ela morre de vergonha disso porque é algo a que ela se obriga, ela se vê dominada pelos cientistas, que só copiam, só aplicam o que lhes é ensinado. Ela não vê sentimento ,nem fé nas pessoas.Ela viu que sua vida não tinha sentido, se refez, e durante todo filme discorre sobre isso: do abandono por parte da família; das escolhas que fizeram por ela.; do lixão de Caxias, de onde ela tira seu sustento.

Há metáforas geniais, o discurso dela em si é fascinante. E, principalmente, durante todo o ano em que ela foi filmada, são registrados os efeitos da medicação e do tratamento psiquiátrico. Esquizofrenia é uma doença incurável e crônica. Estamira não vai ser igual aos outros, então, ela se reafirma em si própria.


Eu separei algumas frases do filme pra deixar registrado.


"Sou Estamira, FORMATO HOMEM PAR. As mães são par, impar são os pais. Os homens. Vocês."

"Sou ser Consciente lúcido, ciente e sentimento."

"Eu transbordei de ficar invisivel com tanta hipocrisia e perversidade. Com tanto trocadilo. A culpa é do hipocrita mentiroso, esperto ao contrario."

"Vocês não aprendem na escola. Copiam, aprendem com as concorrências. Tenho neto de 2 anos que já sabe disso que não foi na escola copiar mentiras e charlatagens."

"O tal do diazepan, então, se eu beber diazepan, eu, que sou louca, se eu beber, fico mais louca. Só copiam. Ela falou que se deus livrasse ela, o trocadilo é ela!"

"Cometa sgnifica comandante natural."

"Tudo aquilo que é imaginario existe e é e tem? Pois é. Nunca tive aquilo que eu sou: sorte boa."

Ela falando do lixão: "Isso é deposito de restos. As vezes também é descuido: resto e descuido. Quem revelou o homem como unico condicional, ensinou-o a conservar as coisas, que é proteger, lavar, limpar e usar mais o quanto pode.

Você tem sua camisa. Você esta vestido, está suado. Você não vai jogar sua camisa fora, não pdoe fazer isso. Quem revelou o homem como unico condicional não ensinou a trair , humilhar, não ensinou tirar. Ensinou a ajudar."

"Economizar émaravilhoso.Quem economiza, tem. O trocadilo fez as coisas de uma tal maneira que, quanto menos elas têm, mais elas menosprezam. MAIS ELES JOGAM FORA."

"Eu, Estamira, sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim. Eu me sinto orgulho e tristeza por isso."


Parabéns, Marcos Prado.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Discurso do Rei (2010)



Campeão de indicações ao Oscar e ainda conseguiu me surpreender. É um filme com estória simples. Trata do rei George VI (Collin Firth), que tinha sérios problemas de gagueira, que inicia tratamento, a pedido de sua mulher, com Lionel Logue (Geoffrey Rush), um fonoaudiólogo alternativo, que o trata e o faz desenvolver seus discursos.


Uma coisa que eu acho engraçada nos filmes ingleses é a humanização que eles fazem da família real. Eles tentam sempre colocar a família real com, o se tivessem uma vida absolutamente normal e simples como qualquer outra família de comercial de margarina. Papai, chamado de "papa", que conta estorinhas infantis pras criancinhas, cheias de mensagens de ética e amor. E a esposa dedicada e simples, que não se importa de tomar chá sozinha na casa de um civil, nem de falar normalmente com a esposa do Lionel. Cena ótima, mas Helena Boham Carter, também ótima, fazendo o papel da grande mulher por trás do grande homem. Do irmão de George que abdica do trono, por amor a uma americana adúltera. Outra coisa: ingleses não toleram muito americanos. Eles o colocam sempre abaixo.

Impressionante como a Helena, longe do Tim Burton, é muito melhor. Já é implicância minha com ele, admito. Odeio diretores superestimados e o Tim Burton consegue ser uma porcaria na minha visão. E ele involui a cada trabalho, o que o torna ainda mais irritante. Já ela, não, é uma ótima atriz. No filme, está um pouco caricata, lógico, mas mis pelo estereótipo de nobre inglesa, que propriamente por demérito dela.

Geoffrey é o melhor ator do filme, seguido bem de perto pelo Collin Firth. Ele só consegue curar as pessoas tornando-se íntimo delas, pondo-se de forma igual, um contraste com os médicos reais, cheios de referências e status. Firth fez um gago com traumas na infância, um homem que aceita sua falta de dom para o discurso, cuja gagueira incomoda quem assiste, no sentido de ser doloroso pra ele. Rush já faz o médico louco, carismático, bem articulado, desinibido que sabe se impor e torna-se amigo do rei, à medida que vai ganhando sua admiração. Chega até mesmo a saber de detalhes da vida pessoal do rei, dos traumas de infância, da relação com o irmão e o pai, do desespero dele diante da renúncia do irmão.

A cena final também é perfeita e comovente. Perfeitos o diretor Tom Hooper e o roteirista David Seidler. Não vejo como este filme poderia ser melhor.

O próximo filme que irei assistir será "O Vencedor" pra ver o porquê do Christian Bale ter tirado o Oscar do Rush.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cisne Negro (Black Swan)


Não sei dizer se foi pela expectativa, por esperar muito do Aronofsky e da Natalie Portman, mas não achei esse filme grande coisa,não. Nem o Oscar dela, pra falar a verdade. Ela merecia muito mais pela atuação em Closer do que neste filme. Natalie parece frágil, vunerável. É fácil pra ela ser a Nina, coisa que não seria pra Mila Kunis. Acho que o Aronofsky errou a mão e a Natalie que salva o filme.

Primeiro, achei o filme um tanto machista. A personagem da Nina é uma bailarina determinada, obsessiva, tecnicamente perfeita, que almeja o papel principal do Lago do Cisne. Ela é escolhida após resistir
às investidas do diretor do espetáculo, heterossexual, vivido pelo Vincent Cassel, que quer instigá-la a ser o cisne negro. Ser o que ela não é: sedutora, liberal, invejosa, sexualizada, impulsiva e auto-destrutiva. Uma mulher que despertasse desejo nos homens, sempre predisposta ao sexo. No filme, quem é assim, é a Beth, interpretada pela Winona Rider.

Existe sempre o clichê de que mulher que se dedica ao trabalho, menos aos relacionamentos, é sempre remprimida sexualmente. A imagem da mãe dela representa isso: clichê da mãe invejosa, fracassada que quer realizar seus sonhos através da filha, disciplinando e dominando suas condutas. Como se faltasse personalidade à personagem. Em algumas cenas, fica evidenciada a consciência que ela tinha do papel da mãe na sua carreira, como, por exemplo, na forma como ela reage ao bolo comemorativo por ter conseguido o papel, a briga das duas, quando ela joga na cara da mãe a culpa que ela gostaria que carregasse por ter fracassado. É evidente que a opção da Nina por não ter relacionamentos se liga com o fato de não querer ter o mesmo final que sua mãe teve: engravidar e terminar a carreira. E que o diretor do balé a viu muito mais como um desafio por ela não ter cedido facilmente aos seus desejos, como outras bailarinas fizeram.

Segundo, o filme é uma busca por características que não são da personalidade da personagem, o que a faz criar uma outra. E aí seguem as alucinações, o lesbianismo (mais um indício do machismo), a reificação da mulher. A forma como a Nina vê Lily é completamente distorcida e o que se vê durante o filme é essa desconstrução de personalidade. O que Nina quer, é provar que é uma bailarina perfeita, realizar um sonho, anulando-se por conta disso. O sexo sem pudores é sempre visto, partindo da mulher como algo negro, assim como a realização da arte por ela. E, no filme, é uma forma de torná-la mais interessante.

A personagem da Natalie, dirigida pelo Michael Nichols, foi muito mais perfeita que a Nina do Aronofsky. A Alice de 2004 conseguia ser os dois extremos de forma muito mais convincente, a ponto de as pessoas terem dúvidas a respeito de qual delas era a verdadeira. Fez os outros atores comerem poeira. Só que a dignidade que sobrava na Alice, falta a Nina, porque personagens principais de filmes do Aronofsky são sempre decadentes e auto-destrutivos. E a dupla personalidade, a esquizofrenia, as drogas são sempre inerentes à sua obra, como uso da câmera trêmula sobre os ombros. Partindo dos filmes anteriores, vemos o quanto há de exercício de estilo neste filme e do quanto a Natalie se faz o diferencial. O Oscar para ela representa o quanto do filme se deve a ela.

E as pessoas falam que é um filme do tipo "ame ou odeie". Eu digo que é um filme do Aronofsky de sempre com uma Natalie Portman de sempre. Ele, humanizando personagens bem sucedidos, a partir da desconstrução, e ela, roubando cenas dos outros atores.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Não Me Abandone Jamais (2010)


O filme trata da história de Kathy, Ruth e Tommy. São três amigos que viviam num internato, chamado Hailsham, e que são preparados para serem doadores de órgãos vitais. Eles vivem isolados do mundo, sempre dentro das fronteiras do lugar, cheio de hortas, jardins, lagos, praticam esportes, estudam, são bem educados. Vivem de forma digna, como crianças, inclusive, uma metáfora do filme é que eles praticam aulas de desenho e tem as galerias, onde eram escolhidos os melhores para exposição, com o objetivo de mostrar que eles têm alma. Hailsham era também a última referência na ética dispensada no tratamento aos doadores.

Conforme houve avanço da medicina e várias doenças tiveram cura, a expectativa de vida foi se aproximando dos 100 anos, e, acredita-se no filme, que, uma vez controlada a possibilidade de doenças, o ser humano poderia viver mais à medida que seus órgãos deficientes fossem trocados. E vários internatos como o de Hailsham foram criados, de forma a preparar as crianças para viverem de forma saudável até o dia de início do processo da doação, que se daria em até 4 etapas. Muitos morriam antes, mas, na quarta, a pessoa já vivia em estado vegetativo.

O que chama a atenção do filme, é a falta de humanidade dispensada aos doadores assim que eles saem do internato. Eles viram mercadoria, deixam de ser humanos aos olhos das outras pessoas, que, no filme, as definem como "pessoas sem alma". E, pelos olhos de Kathy, a narradora, e de seus amigos, vamos descobrindo a diferença dos alunos de Hailsham para os dos outros internatos, a partir dos 18 anos, quando eles se mudam para os "chalés" e a eles é dada a chance de conhecerem lugares próximos, namorar, e, depois, irem para os hospitais, após a notificação do centro de doação.

Nos chalés, é que os três confrontam seus sentimentos, o destino que traçaram para suas vidas e a ligação entre eles, prestes a ser rompida. Kathy e Ruth eram melhores amigas, mas a primeira amava Tommy e era correspondida. Com ciúmes da amiga, Ruth se aproxima e começa a namorar Tommy, o que magoa Kathy, que fica sozinha, mas não deixa de ser amiga dos dois.

Diante disso, quando tem uma chance de escolha, Kathy se inscreve para ser cuidadora de doadores, uma espécie de assistente, que lhes dá apoio e os prepara para as etapas de doação, acompanhando-os até a morte. Passam-se 10 anos, ela reecontra os amigos, já em estágio de doação, e tentam resolver as diferenças e, no caso de Kathy e Tommy, reviverem o amor que perderam. Kathy, então, passa a ser assistente de Tommy e visita Ruth com regularidade.

Apesar da resenha, o filme não tem uma história contada de forma clara. Não se sabe nada a repeito dos doadores, do porquê disso, da metodologia dos internatos*. Ele é focado apenas no drama e sofrimento de Kathy. Eles vão descobrindo a respeito da sua origem, mas são sempre boatos. Por terem vivido isolados até os 18 anos, eles têm uma conformação com o destino que os outros doadores não tinham. Eles acreditam serem clones, e que há um duplo deles vivendo uma vida normal. Passam a achar que o motivo das pessoas não os tratarem como iguais, seria o fato de eles serem clones de prostitutas, presidiários, assassinos, menos psicopatas (doença genética).

O mundo deles não permitia que eles tivessem uma compreensão maior e realmente entendessem o que se passava com eles. Você sabe exatamente o que você é e o porquê da sua existência quando sabe qual é o seu destino. No mundo normal, as pessoas diferenciam o tratamento quando sabem com quem estão lidando, principalmente, para colocá-los em seu lugar. A eles não foi ensinado isso, eles não lidavam com o lado mau do ser humano porque não o conheciam. Suas pretensões eram inocentes, como inscrever-se como assistente para poder dirigir carro.

O máximo que eles conseguem chegar próximo de esperança, se dá quando ficam sabendo da possibilidade de Tommy ter adiada sua terceira doação. Ele se torna um desenhista talentoso, mas não mostra sua obra a ninguém. Ele acreditava que, se fossem até a Diretora do internato, poderiam obter concessão, pois ele amava verdadeiramente Kathy desde criança, e isso ficaria demonstrado na arte. E, então, foi-lhe explicado que a galeria de arte existia, não para que fosse lida a alma dos alunos, mas para provar que eles tinham uma, porque não era assim que os outros o viam quando eles saiam.

Kathy se imagina vendo Tommy acenando pra ela após a sua morte. Aí, ela vê que se eles existem para salvar vidas de pessoas que são como eles, que continuarão mortais mas mesmo vivendo por mais tempo, talvez, eles também não compreendam se viveram o bastante.

*Imagine que essas crianças fossem aquelas desprezadas pelos pais, ou, que, por algum motivo, não foram abortadas, ou embriões não utilizados em inseminação artifical. Crianças sem direito à vida. Elas acreditam serem clones de pessoas marginais porque a elas era negado direito de manifestação. De algum outro ser, elas vieram.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Donnie Darko SPOILERS

Eu vi apenas o filme, não vi os comentários dos atores, diretor, etc. e vi no mesmo dia em que eu postei aqui. O problema de se lidar com filmes cults é ter que ir de encontro com o que os fãs pensam. Interpretação tem limites e eu não acho que o diretor do filme faria um comentário sobre o final do filme, entregando do que realmente se trata, ainda mais sabendo que os fãs criaram toda uma teoria sobre viagem no espaço, o que faz parecer genial, algo que, sinceramente, não acho que tenha sido a intenção do autor, mas criação de fãs.

Se você sustenta essa teoria de superpoderes premonitórios e de alterar o futuro, você ignora detalhes do filme e cria um monte de furos. Questionamentos que o filme, por si só, não responde. Não teria a menor relevância o Donnie ser esquizofrênico, não faria sentido ele morrer, já que ele morreria sozinho, sua namorada e a Samantha também, porque a diferença da história dos 28 dias é que o que ele mais temia, morrer sozinho, não ocorre com ninguém, nem com o Frank. Ele cria uma história que não tem nada a ver com o que acontece, porque ele não vê sentido na forma como as pessoas encaram a vida. Desde família, escola, busca por Deus, auto-ajuda, etc. E tudo isso é explicitamente criticado, não é subjetivo. 


A trilha sonora passa de forma videoclíptica, na quase integralidade e sempre alta. Porque a letra é importante. E as ações que o Frank o manda praticar são feitas de forma desmotivada. "THEY MADE ME DO IT" é o que ele escreve no pátio da escola. Por que "eles"? porque, por todo o filme, ele é acompanhado dos dois amigos imaginários que você vê no ponto de ônibus.Até na última cena, quando o Frank leva o tiro, eles estão lá. Eles sempre estão em segundo plano, um de cada lado e o Donnie no meio. O abafador de orelha que ele pega Cherita também tem um simbolismo. Ele diz a ela que as coisas iriam melhorar pra ela. Ele diz pra si próprio, porque ela é uma pessoa solitária, depressiva e sofre de bullying, como ele também. O abafador é pra não ouvir as vozes imaginárias. Depois da cena, do caderno no chão, vê-se o Donnie usando os abafadores.Sozinho, sem os amigos.

Em relação ao que o diretor e ator andam dizendo, sinto muito. Existe uma coisa que se chama metalinguagem. O filme é muito direto em relação a isso. Até nas letras da trilha sonora. Então, pra mim, vale o que é mostrado, não o que o diretor fala.

Pela versão do diretor, pelas cenas originalmente gravadas e cortadas da versão original, conclui-se que ele propõe mesmo que o Donnie cometeu suicídio e que seria mesmo o filme uma explicação entre as causas e a visão que ele tinha dos fatos e das pessoas. E é bem constante a repetição de determinados gestos. São ora memórias, ora como ele gostaria que acontecesse.



Os bilhetes da geladeira são escritos por ele e a família os ignora. Ele volta pra casa no início(passa pelo carro do Frank) e ninguém repara que ele não dormiu fora, apesar do bilhete “Aonde está Donnie?”. A irmã dele entrega que ele não tem tomado os remédios pra se vingar, diz que não é nada demais. A mãe vai perguntar se ele foi jogar papel higiênico na casa dos vizinhos , como se ele não fizesse nada de grave, quando não toma os remédios e vai “dormir”.

Ele sofre de bullying na escola (ele se identifica com a Cherita). É repetente e não tem amigos. Isto, a gente sabe pela psiquiatra. Daí, concluir-se que os amigos dele no filme são imaginários. Na escola, que surgem a teoria das oposições: destruição x recriação (na aula, pouco antes de ele destruir a escola), amor x medo (teoria do JC, que revoluciona a forma das pessoas verem as coisas). A oposição principal, representada pelo Frank (que é o cara ”amaldiçoado,” que o pai do Donnie comenta com a mãe) X Donnie. Frank está morto. Em vários momentos, cita-se morte e busca por Deus.Ele pode visualizar como o namorado da irmã. Frank é como o pai dele fala, ou seja, filho do amaldiçoado.

A turbina do avião tem um simbolismo: remorso. Ela destrói a casa, que representa a família, logo, se vc considerar a existência da turbina, a morte seria presumida pela queda da turbina, o que absolviria os pais e a irmã pela negligência. Ele deu sinais, e a família os ignorou.

A teoria do universo paralelo, representada pela Roberta Sparrow, seria um mundo onde as coisas seriam diferentes , porque, pra ele, neste mundo (real) ele teria que morrer. Como se fosse importante e não houvesse escolha. O que ele diz à RS seria como uma carta de suicídio. Ela quem diz a ele que todas as criaturas morrem sozinhas. Seria como se ele fosse apenas dormir, e ir pro universo paralelo.

A cena em que a psiquiatra menciona sobre os placebos é uma metáfora.Placebos não têm efeitos medicinais, mas o cérebro acredita serem de verdade. É uma referência entre ser agnóstico e ateu. Realidade e ilusão.A fé é a forma como se faz o cérebro, que comanda o corpo, acreditar que pode acontecer.

Enfim, eu acho exatamente o contrário do que disseram: se você coloca o filme como sci fi, você o empobrece culturalmente. Existe toda uma linguagem e uma série de simbolismos que estão nas entrelinhas da história e isso inclui alguns personagens, além do filme e da literalidade visual.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Donnie Darko (2001)


É um filme que trata de esquizofrenia sob o ponto de vista do esquizofrênico. De como uma pessoa doente pode ter uma visão crítica muito mais sensata do que as pessoas "normais" e a filosofia da auto-ajuda, que deixa as pessoas cegas, passivas em relação àqueles que "podem" dizer o que se deve fazer. Desde médicos psiquiatras a filósofos da auto ajuda que são instrumentos modernos de dominação, com ápice na década de 80, quando se ambienta o filme.

Donnie cumpre pena alternativa por ter causado um incêndio. Ele foi diagnosticado como esquizofrênico, toma psicotrópicos e é tratado por uma psiquiatra liberal. O filme trata da forma como ele se vê , não como ele realmente é. E isto se deve ao fato da perda de controle sobre ele. Tanto dos medicamentos quanto das sessões com a psiquiatra. Donnie sofre de sonâmbulismos e consegue sair de casa. Na primeira cena, ele está voltando pra casa depois de dormir fora casa e é o dia em que os pais descobrem que ele não está tomando seus medicamentos e passam a aumentar o controle sobre ele. E , neste mesmo dia, ele passa a ter contato com Frank - um coelho gigante, que ele acredita ter vindo do futuro, que o convence praticar condutas que ele não deseja, mas que trarão benefícios para o seu futuro. E paralelamente a isso, ele busca fundamentos para a argumentação do Frank, do portal do tempo, da influência da "Filosofia de viajar no tempo" escrita por Gradma Death (vovó surda), cujo nome é Roberta Sparrow, Da mesma forma que o filme "De volta para o futuro".

Aliás, duas coisas a serem observadas : primeiro, a referência ao livro do Graham Greene (portador de esquizofrenia), numa aula, em que somente ele entende a lógica do livro, a motivação de um incêndio, onde crianças entram numa casa e queimam o dinheiro que acham no colchão. Provavelmente , a forma como ele cometeu o crime pelo qual cumpria pena e, também, quando falam da teoria do tempo, do Deloren, o professor de Física não o acompanha no raciocínio. Há também uma teoria dele a respeito dos smurfs. São coisas que ele vê, toma como óbvias, e as pessoas não entendem. O livro da filosofia do tempo é algo que ele queria ver, como se estivesse sendo compreendido.

No filme, ele escapa de um acidente. Uma turbina de avião cai exatamente em cima do seu quarto. Ele estava dormindo num campo de golfe, por causa de seu sonâmbulismo. A partir daí, ele descobre, por Frank, que faltam 28 dias para o fim do mundo. Chega um escritor, John Cunningham com uma filosofia do Medo x Amor, ele conhece Gretchen, uma aluna nova, que vive sob custódia do estado, em programa de proteção à testemunha (pós tentativa de assassinato da mãe pelo padrasto). Eles se apaixonam, e ele descobre que, em torno dela, há toda uma cadeia de acontecimentos e situações que só poderiam ser mudados se fosse possível mudar o tempo. É por isso que ele obedece ao Frank, por acreditar que está evitando o lado ruim dos fatos, como se ele fosse um instrumento de mudança e importante para as pessoas. E a gente vê, inclusive na cena em que ele afronta Cunningham, acusando-o de anticristo, recebendo aplausos dos colegas, de como ele se torna celebridade ao sobreviver ao acidente, dos amigos, pessoas que admiram sua inteligência e influência.

Após o tempo de 28 dias, começa-se a ver a visão "real" dos fatos. São apresentados todos os personagens, como ocorreu o acidente da turbina, e todo o filme é fruto de uma alucinação sua e, inclusive seus amigos, imaginários, da mesma forma que o Frank. Ele era uma pessoa sozinha, desconhecida, que fantasiava a respeito da própria realidade.

*Destaque pra trilha sonora: Echo and the Bunnymen, Tears for Fears, Duran Duran,  Michael Andrew e Gary Jules.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Na natureza selvagem (2007)


Este filme, do Sean Penn, conta a estória de um jovem ,vinte e poucos anos,recém formado, que abandona família e todos os luxos pra seguir a filosofia “easy rider” natureba. Ele acredita que a felicidade é possível de ser alcançada sozinho com a natureza. Pra isso, se desvencilha do dinheiro, identidade, e segue anônimo numa jornada até o Alasca que durou 2 anos.

Embora seja algo discutível, o filme toma uma visão crítica do comportamento do garoto. Não chega a enaltecer sua atitude, tornando-o herói. Pelo contrário, a todo momento, existe um questionamento a respeito da ética dele. As pessoas que ele vai conhecendo no percurso, que o acolhem, o ajudam, discordam de vários pontos de sua forma de pensar. Um deles, o chavão da fuga da sociedade para a natureza, do individualismo burguês, busca da felicidade, da bondade do ser humano , etc. Tudo perdido em função do dinheiro. Aí, é que está um ponto importante do filme: ele conta com a solidariedade de desconhecidos, não se comunica com a família e não se apega a ninguém. Ele se mantém sozinho e assim permanece, sem qualquer vínculo. Nem mesmo o nome verdadeiro.

Daí, a moral indigesta do filme: a felicidade só é real, se compartilhada. Mas também poderia ser que ética não é algo individual, como também a civilização não se opõe á natureza.

É um filme muito bem retratado, com uma trilha especialmente composta pra ele,muito bonito de ser ver, o diretor capta bem o “espírito aventureiro”e, embora não haja intenção de questionamentos políticos, mas apenas retratar uma história real, é importante, que o espectador veja por este ângulo: da ética. E daí, forme sua própria opinião.

sábado, 3 de abril de 2010

O Segredo dos seus Olhos (2009)

Estamos tratando de um filme argentino que ganhou o Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro. Filme que trata de amor.Melhor: da conduta amorosa. De como vemos uma pessoa que ama na sua plenitude. São duas histórias entrelaçadas, duas formas de viver o amor: renúncia e o auto sacrifício.

Ricardo Darin vive Benjamin Espósito, que trabalha numa espécie de corte criminal, onde ele é um escrivão. E surge um caso de um assassinato de uma mulher em que ele trabalha: ela foi estuprada e morta. Ele conhece o marido da vítima e fica fascinado pelo amor que ele sentia por ela. A ponto de ele apenas sobreviver, não encontrando sentido em nada, a não ser esperar pelo assassino de sua mulher na estação do trem*. Espósito também é escritor amador. Tenta há anos criar uma história, mas nunca cosnegue inspiração porque ele mesmo, ama uma mulher há anos, mas não tem coragem de se declarar, e ela percebe isso. Envolvido com o caso, ele consegue encontrar o assassino, que tem uma série de conchavos políticos, e o governador, a quem se subordinava a tal corte criminal solta o assassino, que seria condenado, réu confesso ainda por cima, a prisão perpétua.

Ao saber que o assassino está livre, Morales entra em desespero. Fica indignado, e Espósito vê que a vida dele parece que não vale nada. Tenta de todas as formas colocar o assassino na prisão, motivo que faz com que ele sofra um atentado, onde morre um grande amigo no seu lugar, fugindo de trem para uma outra cidade. Passam-se 25 anos. Espósito,então, vai visitar Morales. Ele vê numa casa isolada, de quintal, um homem de vida vazia, apregoado ainda ao passado, inerte. Uma pessoa frágil completamente diferente daquele homem que conheceu 25 anos antes. E ele desconfia muito do que teria acontecido, o que o levou àquele conformismo.

E aí é que chegamos ao ponto mais importante do filme. A quem ama, o sofrimento do assassino nunca será o bastante. E Morales dizia que era contra a pena de morte por ser um abreviador do sofrimento do apenado. Que a prisão pépetua do assassino seria uma equiparação do sofrimento que ele passaria por perder quem ama. E Morales se vingou, capturou o assassino, levou-o para o lugar onde vive durante 25 anos e o aprisionou. Sem nunca falar com ele. Fez justiça pelas próprias mãos.

O filme é sutil, mas explicita os efeitos do amor não vivido. É óbvia a identificação entre Espósito e Morales: a privação de viver um amor. Um, pela própria decisão, outro, por circustâncias alheias a sua vontade e isso serve pra que Espósito se declare à sua amada e repense sua segunda chance. Ela casou com um homem rico, teve filhos e ele teve sua vida estagnada. A pessoa sobrevive: não constrói, não melhora, fica entregue ao tempo. Da mesma forma que um prisioneiro fica em relação à prisão durante o cumprimento da pena. Todos perdem.


O filme é uma readaptação de um livro. É muito bem dirigido. Vale muito a pena. Também, frise-se: a violência em si não se justifica. Embora a ética de quem ama seja transindividual, digamos assim, a natureza do sofrimento do Isidoro Gomez, o assassino, tem uma outra natureza e é igualmente absurda.



*durante o filme, surge um suspeito, que conhecia a vítima há anos, que parecia ter obsessão por ela, mas que nunca tiveram nada. Ele se sentia preterido, amor não correspondido.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Preciosa( 2009)

Preciosa é um filme que trata de violência doméstica em todas as conotações que ela tem. É sexual, quando se trata de pai e filha e física e moral quando se trata da mãe. A vítima é uma menina de 16 anos, que teve a vida estagnada, e, traumatizada pela relação que ela sofre com a família dentro de casa. Estuprada pelo pai constantemente, tem 2 filhos dele: uma menina com problemas mentais, a quem chama de Mongo, e um menino. Ela recebe ajuda do governo, vai constantemente a reuniões com assistentes sociais para ganhar um incentivo que sustenta a familia. Apenas ela, a mãe é quem se aproveita do dinheiro. Não trabalha e faz com que a filha se prive da vida de adolescente pra cuidar dos filhos e servi-lhe como escrava.

A história em si é bem simples. Pra amenizar as cenas de violência suportadas pela protagonista, são interpostas cenas dela como uma "celebridade", um sonho onde todos estão adorando-a, um sonho que ela tem que se antagoniza com sua realidade.

O filme trata da perda da dignidade de uma pessoa. De bully. Precious sofre violência de todas as formas e é a única coisa que recebe do ser humano até aparecerem uma professora do curso de alfabetização especial do qual ela participa, a diretora, tentando ajudá-la, e a própria assistente social que, desconfiada dos abusos sofridos por Precious, corta o benefício, forçando a mãe a ir às reuniões. É forte, mas é um fato bem banalizado na sociedade. E não se trata nem do racismo., o enfoque é a violência da mulher * e de como há diferentes formas de reação. A avó de Precious cuida muito bem da neta, da mesma forma que cuidou da filha, mãe da Precious. Existe carinho e dedicação; a violência que ela sofre é do marido, e, tudo é descontado na filha. Pessoas que sofrem violência tendem a repetí-la em outras mais frágeis ou reagem como Precious, que, mesmo com toda passividade, quando tem a oportunidade, tenta reconstruir a vida. E existe uma omissão da avó, apesar de toda indignação que sente ao ver a filha cuidar da neta., o que faz dela uma cúmplice, não apenas uma testemunha.

A cena mais forte do filme é a cena final. Muito bem protagonizada pelas atrizes (incluindo Mariah Carey, que faz a assistente social). Lá, é narrado, pela mãe, como se deu o primeiro abuso sexual sofrido pela Precious aos 3 anos de idade. É uma cena que, a meu ver, teve um ruído. Existe uma diferença de intensidade nas atuações. A mãe durante o filme é bem dissimulada e, na cena final, há uma destoância porque ela parece sincera, comove a assistente, e a filha age de forma desdenhosa. Vale ressaltar que ela só estava ali pelo dinheiro, por nunca ter ido às reuniões. E isso era notório. Ficou uma dúvida.

* Há uma cena simbólica. A Precious conversando com a assistente pergunta a ela que cor que ela tem. E a assistente não se encaixa num perfil.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Avatar (2009)


A primeira informação relevante sobre este filme é a sua duração de 2h40min, o que vai demandar do telespectador tempo e paciência. Então, coragem. A segunda é de que não vale a pena, mas como todo filme americano que concorre a Oscar tem um apelo comercial surreal, não adianta a gente dizer que não é recomendável que as pessoas vão assistir do mesmo jeito. E, obviamente, o filme é o primeiro de uma série.

Trata-se de uma missão, a não sei quantos anos a frente daqui, num planeta chamado Pandora, onde vivem seres humanóides com uns 5 mts de altura, azuis e com rabo de rabo de cavalo, cuja descrição visual é a dos nossos antigos povos de baixa cultura. americano tem essa fixação com indígena e, quando não se trata de filmes de terror, os alienígenas são sempre culturalmente menos evoluídos que os homens. A vantagens dos aliens é que eles são fisicamente muito desenvolvidos e fortes e eles são o topo da cadeia alimentar. São mais inteligentes que os animais locais, têm dominância sobre eles e têm um contato mais pessoal com a natureza. Eles pedem desculpas aos animais que sacrificam pra comer. E, literalmente, são conectados a natureza. Tem essa coisa de consciência ecológica, até porque o filme mostra um reinício e os seres azuis são os protagonistas.

Jake Sully é um humano de coração bom. Ele se junta à uma missão substituindo seu irmão que estava a frente das pesquisas em Pandora, na construção dos avatares (que são uma espécie de robôs biologicamente criados pra interagirem com os navis afim de dominá-los). Como o irmão gêmeo do Jake morreu, ele entra no lugar. E ele é paraplégico. A função dele é , através de seu avatar, se infiltrar na sociedade navi, estudar seus costumes e negociar a ocupação do território onde existe uma reserva de um metal que, na Terra, vale 20 milhões de dólares, o kg. Na missão, também estão Grace, Sigourney Weaver, bióloga que está apenas interessada no estudo e um general bem clichezento responsável pela dominação através da força e do genocídio.

A história é bem óbvia, então, nem vou me prender muito a isso, mas o que eu acho interessante, digamos, é a forma como os navi's são tratados. Eles vivem como os nossos índios, num comunitarismo primitivo. E também, o filme quer remeter a um novo começo porque hoje nós vivemos num planeta completamente descompensado devido ao extrativismo e exploração ecoômica do homem que só destrói, não preserva. Em breve, a gente terá que se mudar pra outro planeta e vai ter que mudar e se conscientizar da preservação. Tem isso aí: a consciência ecológica. E os navis fazem o bom uso da natureza, com respeito a ela, que nós humanos não temos. E a função do Jake é essa também: ele representa o homem atual que quer caminhar a frente (lógicamente, ele é paraplégico, com o avatar, ele volta a andar e se apaixona com uma navi e faz sexo com ela), ex militar, que muda, tem um bom coração e ele vai querer ser como um navi. Da mesma forma que o Sting vê o Paulinho Paiakan. Existe um um interesse transindividual do Jake. Ele começa pensando em si próprio e no homem, depois ele passa a pensar nos navis, até pela ética da conduta amorosa. Aliás, temos aí na Grace e no Jake todas as modalidades de conduta ética sopesadas.

Postas as diferenças, dito que a mensagem do filme é válida, não há nada ali que você possa dizer que te impressiona. É um filme do James Cameron, que fez exterminador do futuroe a própria série Alien. Tem lá a crítica ao militarismo, sua associação ao totalitarismo, imposição pela violência, ao capitalismo, etc. E tudo tratado na melhor forma de vide-game. Inclusive, você pode ver o filme em 3D. Tudo muito moderno, mas pouco inovador pro que o cinema representa.


*Gostaria só de falar também da presença do Giovani Rigbisi e da Michelle Rodriguez que são dois diferencais nos gêneros que normalmente atuam. O primeiro é um excelente ator, que fez o Heaven que eu comentei há algum tempo e ela, é uma referência de filmes de ficção, como Resident Evil. Embora, coadjuvante, sempre se destaca. Sempre tem uma importância nos filmes. Ela prepara o caminho pro protagonista. Ela é figurinha fácil de ficcção, e o Giovani, bom, cinema arte não dá tanto dinheiro,né? Tá certo ele.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Breath (2007) Spoilers


Por muitas vezes, a inércia independe do ser humano. No caso de um preso, por exemplo, um condenado a morte: não há o que fazer senão esperar. As pessoas ignoram a tristeza e o sofrimento que é viver sem mudar a situação em que se está,porque simplesmente é mais fácil negar e demonstrar o quanto se pode ser feliz, como se fosse uma escolha ser triste.

No filme, a personagem principal, Yeon, não é feliz. É ignorada pela própria família (marido e filha) e se sente secundária. Desimportante. As pessoas a vêem como parte da casa porque ela vive em função delas: lava, passa, cozinha, cuida. Ela passa por um vazio na vida e quer ser importante para alguém. E ela vê na TV um preso, Jin, condenado a morte, que tentara suícido duas vezes. Não há sentido em esperar para morrer, ele só não o faz porque não tem condições de mudar de situação, inclusive, ele prefere morrer a viver daquele jeito. E viver, pra quem é condenado a morte, faz parte da pena porque é ser constantemente humilhado.

Ela o vê pela TV e faz por ele algo que ele não poderia ter, mas que ela poderia dar: a visão do lado de fora. Mesmo que simbolicamente. Ela o visita na cadeia e em reuniões particulares, enfeita a sala de visitas com papéis de parede simbolizando as estações de ano. E a estação em que se passa o filme é o inverno. A cada visita, ela vai com a roupa da estação, o que obviamente, faz com que ela sofra com o rigor do frio. Ela canta, conta histórias, apresenta a ele sua família através de fotos. E tudo é monitorado pelo chefe do presídio, certamente, entediado com a ausência de novidades em seu trabalho. A função dele, igual, é apenas observar.Remete imediatamente ao que se vê nos realities shows, onde o público deixa a própria vida, pra ficarem inertes observando a vida alheia.

E o contraste: eles sentem a mesma tristeza, mas ela ainda tem o que ele perdeu, embora esteja prestes a fazer o que ele fez. A liberdade aqui não faz diferença, porque a Yeon se anulou perante seus familiares, da mesma forma que Jin se anula perante a sociedade. E ser inerte, quando se é livre, muitas vezes, é esperar por uma catástrofe. E as mudanças acontecem de dentro pra fora. Quem vive ao lado, percebe. No caso dela, o marido, a vê mais bonita, abandona uma amante (um dos motivos da ruína do casamento), mas não entende o porquê da mudança. No dele, um companheiro de cela, apaixonado, que não gosta e se vê preterido, ao notar que Jin lhe parece feliz e não precisa dele.

Com isso, ela vai despertando o interesse na família, que não sabe o que ela faz. Aliás, é uma coisa engraçada: a displicência dela com as tarefas domésticas, as saídas misteriosas, vai despertando o interesse da família. Eles começam a perceber a sua utilidade e começa a preocupação de perdê-la.

Ela tenta salvá-lo, ele a salva e, quando ela recupera a família, a história dos dois perde o sentido. Ele volta pra cadeia, ela pra família, porém revigorados.