domingo, 18 de julho de 2010

Um olho no macaco, outro na onça


A coruja estava ensinando sobre a vida pro seu filhotinho observando a onça e o macaco. A jovem onça estava toda chorosa, pedindo pro macaco descer da árvore pra que eles fossem brincar no rio. E o macaco disse que ia ficar lá em cima pra esperar a chuva cair, porque, naquele dia, achava melhor banho de chuva. Quando a onça disse que não poderia subir e esperar com ele, ele respondeu que a chuva cai e nos encontra, não somos nós que subimos de encontro á chuva.

- Olha , lá! Ela quer comer o macaco. Disse a mãe coruja.
- Mas, mãe, onça come ave que nem a coruja?
- Só as do grupo dos burros, porque só sendo muito burro, podendo voar, e ser presa de um animal da terra.
- E de que grupo nós somos?
- Nós também somos do grupos dos espertos. Nem mentirosos como a onça, nem desconfiados como o macaco. Até porque, pra quem tem olhos deste tamanho, o óbvio não pecisa se dito.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ao vencedor moral!


Foi injusto. Todo mundo sabe. E, tivemos o último representante sulamericano caindo diante dos europeus. Forlán caiu, mas lutou, o grande Luis Suarez salvou a pátria e se sacrificou. Não jogou, não pode ajudar, mas ele deu a chance do Uruguai sonhar com as finais. Um Herói. E histórias de heróis, você sabe, não se decidem no meio, mas no último minuto, ele só tinha que por a mão pra salvar seu time e estragar a festa dos donos da casa como há décadas o Uruguai sempre faz. E ele fez, depois disso, um minuto foi pouco. Seus companheiros foram gratos. E quem diria: Gana X Uruguai foi o jogo mais emocionante da Copa do Mundo! Protagonistas fazem isso.

D. Diego Forlán não tem que baixar a cabeça pra esta Holanda e a gente não tem que lamentar o honroso placar de 3 a 2, nem aquele segundo gol da Holanda em impedimento. A gente não vai dizer que eles achavam que ganhariam de 3 a 1 e que em um pouco de tempo a mais poderia ter vindo a justiça.

Eu falo "a gente" porque eu me vi ali representado. O tipo de futebol bonito, corajoso estava ali. E paixão não se ensaia. Eu senti isso também quando o Paraguai resistiu até o fim contra a Espanha. Eles têm o futebol técnico, nós temos o futebol da raça. Eles avançam, nós resistimos. Assim se escreveu a história: com suor e sangue.

Obrigado, Luis Suarez, obrigado, Diego Forlán. Obrigado, jogadores da seleção uruguaia, por salvarem a Copa da África!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

True Blood


É a melhor série que eu já vi em 5 anos pós "Six Feet Under". Tão bem amarrada e tão rica em personagens que ninguém ali é figurante. Todo mundo tem uma função. Você pode preferir os personagens secundários, como eu, você pode discordar do mocinho e o ver sob o ponto de vista do vilão. Não existe aquela lineariedade moralizadora, porque a série existe pra criticar justamente isso: a idiotice conservadora. É mais que uma série de vampiros. É uma série que critica a sociedade, a política de minorias e sua eterna busca da especialidade a partir da exceção. Da religião como argumento massificador da intolerância.

E você pode achar que parece X-men. Parece mesmo, pegaram até a Vampira dos X-men, que, na série, não é uma deles. É um X-men pra adultos com senso crítico e de humor refinado. Parte do homem x Vampiros. Vivos x mortos. Estes lutando pela igualdade em direitos civis. Pela pacificação, enquanto os homens pelo extermínio. Os vampiros sugam o sangue dos humanos e os humanos dos vampiros. E você tem ainda os mênades, lobisomens, metamorfos,etc.

Cansados de se esconderem por milhares de anos, os vampiros resolveram aparecer, dois anos antes do início da série. Eles se alimentam de um sangue industrializado e não mais necessitam sugar sangue humano, tomam o mundo humano-centrado e lutam pela coexistência e igualdade em direitos. Autodeterminação. Vampiros são aqueles que perderam humanidade ,mas que não necessariamente significa barbárie. Eles podem ser civilizados e tolerantes, e podem exercer domínio e escravizar o humano. O que a série enfatiza é o vice-versa: a igualdade de fato de natureza e nocividade. Do que pode significar pra alguém viver em sociedade.  O referencial são os homens, não os vampiros.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Donnie Darko SPOILERS

Eu vi apenas o filme, não vi os comentários dos atores, diretor, etc. e vi no mesmo dia em que eu postei aqui. O problema de se lidar com filmes cults é ter que ir de encontro com o que os fãs pensam. Interpretação tem limites e eu não acho que o diretor do filme faria um comentário sobre o final do filme, entregando do que realmente se trata, ainda mais sabendo que os fãs criaram toda uma teoria sobre viagem no espaço, o que faz parecer genial, algo que, sinceramente, não acho que tenha sido a intenção do autor, mas criação de fãs.

Se você sustenta essa teoria de superpoderes premonitórios e de alterar o futuro, você ignora detalhes do filme e cria um monte de furos. Questionamentos que o filme, por si só, não responde. Não teria a menor relevância o Donnie ser esquizofrênico, não faria sentido ele morrer, já que ele morreria sozinho, sua namorada e a Samantha também, porque a diferença da história dos 28 dias é que o que ele mais temia, morrer sozinho, não ocorre com ninguém, nem com o Frank. Ele cria uma história que não tem nada a ver com o que acontece, porque ele não vê sentido na forma como as pessoas encaram a vida. Desde família, escola, busca por Deus, auto-ajuda, etc. E tudo isso é explicitamente criticado, não é subjetivo. 


A trilha sonora passa de forma videoclíptica, na quase integralidade e sempre alta. Porque a letra é importante. E as ações que o Frank o manda praticar são feitas de forma desmotivada. "THEY MADE ME DO IT" é o que ele escreve no pátio da escola. Por que "eles"? porque, por todo o filme, ele é acompanhado dos dois amigos imaginários que você vê no ponto de ônibus.Até na última cena, quando o Frank leva o tiro, eles estão lá. Eles sempre estão em segundo plano, um de cada lado e o Donnie no meio. O abafador de orelha que ele pega Cherita também tem um simbolismo. Ele diz a ela que as coisas iriam melhorar pra ela. Ele diz pra si próprio, porque ela é uma pessoa solitária, depressiva e sofre de bullying, como ele também. O abafador é pra não ouvir as vozes imaginárias. Depois da cena, do caderno no chão, vê-se o Donnie usando os abafadores.Sozinho, sem os amigos.

Em relação ao que o diretor e ator andam dizendo, sinto muito. Existe uma coisa que se chama metalinguagem. O filme é muito direto em relação a isso. Até nas letras da trilha sonora. Então, pra mim, vale o que é mostrado, não o que o diretor fala.

Pela versão do diretor, pelas cenas originalmente gravadas e cortadas da versão original, conclui-se que ele propõe mesmo que o Donnie cometeu suicídio e que seria mesmo o filme uma explicação entre as causas e a visão que ele tinha dos fatos e das pessoas. E é bem constante a repetição de determinados gestos. São ora memórias, ora como ele gostaria que acontecesse.



Os bilhetes da geladeira são escritos por ele e a família os ignora. Ele volta pra casa no início(passa pelo carro do Frank) e ninguém repara que ele não dormiu fora, apesar do bilhete “Aonde está Donnie?”. A irmã dele entrega que ele não tem tomado os remédios pra se vingar, diz que não é nada demais. A mãe vai perguntar se ele foi jogar papel higiênico na casa dos vizinhos , como se ele não fizesse nada de grave, quando não toma os remédios e vai “dormir”.

Ele sofre de bullying na escola (ele se identifica com a Cherita). É repetente e não tem amigos. Isto, a gente sabe pela psiquiatra. Daí, concluir-se que os amigos dele no filme são imaginários. Na escola, que surgem a teoria das oposições: destruição x recriação (na aula, pouco antes de ele destruir a escola), amor x medo (teoria do JC, que revoluciona a forma das pessoas verem as coisas). A oposição principal, representada pelo Frank (que é o cara ”amaldiçoado,” que o pai do Donnie comenta com a mãe) X Donnie. Frank está morto. Em vários momentos, cita-se morte e busca por Deus.Ele pode visualizar como o namorado da irmã. Frank é como o pai dele fala, ou seja, filho do amaldiçoado.

A turbina do avião tem um simbolismo: remorso. Ela destrói a casa, que representa a família, logo, se vc considerar a existência da turbina, a morte seria presumida pela queda da turbina, o que absolviria os pais e a irmã pela negligência. Ele deu sinais, e a família os ignorou.

A teoria do universo paralelo, representada pela Roberta Sparrow, seria um mundo onde as coisas seriam diferentes , porque, pra ele, neste mundo (real) ele teria que morrer. Como se fosse importante e não houvesse escolha. O que ele diz à RS seria como uma carta de suicídio. Ela quem diz a ele que todas as criaturas morrem sozinhas. Seria como se ele fosse apenas dormir, e ir pro universo paralelo.

A cena em que a psiquiatra menciona sobre os placebos é uma metáfora.Placebos não têm efeitos medicinais, mas o cérebro acredita serem de verdade. É uma referência entre ser agnóstico e ateu. Realidade e ilusão.A fé é a forma como se faz o cérebro, que comanda o corpo, acreditar que pode acontecer.

Enfim, eu acho exatamente o contrário do que disseram: se você coloca o filme como sci fi, você o empobrece culturalmente. Existe toda uma linguagem e uma série de simbolismos que estão nas entrelinhas da história e isso inclui alguns personagens, além do filme e da literalidade visual.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Donnie Darko (2001)


É um filme que trata de esquizofrenia sob o ponto de vista do esquizofrênico. De como uma pessoa doente pode ter uma visão crítica muito mais sensata do que as pessoas "normais" e a filosofia da auto-ajuda, que deixa as pessoas cegas, passivas em relação àqueles que "podem" dizer o que se deve fazer. Desde médicos psiquiatras a filósofos da auto ajuda que são instrumentos modernos de dominação, com ápice na década de 80, quando se ambienta o filme.

Donnie cumpre pena alternativa por ter causado um incêndio. Ele foi diagnosticado como esquizofrênico, toma psicotrópicos e é tratado por uma psiquiatra liberal. O filme trata da forma como ele se vê , não como ele realmente é. E isto se deve ao fato da perda de controle sobre ele. Tanto dos medicamentos quanto das sessões com a psiquiatra. Donnie sofre de sonâmbulismos e consegue sair de casa. Na primeira cena, ele está voltando pra casa depois de dormir fora casa e é o dia em que os pais descobrem que ele não está tomando seus medicamentos e passam a aumentar o controle sobre ele. E , neste mesmo dia, ele passa a ter contato com Frank - um coelho gigante, que ele acredita ter vindo do futuro, que o convence praticar condutas que ele não deseja, mas que trarão benefícios para o seu futuro. E paralelamente a isso, ele busca fundamentos para a argumentação do Frank, do portal do tempo, da influência da "Filosofia de viajar no tempo" escrita por Gradma Death (vovó surda), cujo nome é Roberta Sparrow, Da mesma forma que o filme "De volta para o futuro".

Aliás, duas coisas a serem observadas : primeiro, a referência ao livro do Graham Greene (portador de esquizofrenia), numa aula, em que somente ele entende a lógica do livro, a motivação de um incêndio, onde crianças entram numa casa e queimam o dinheiro que acham no colchão. Provavelmente , a forma como ele cometeu o crime pelo qual cumpria pena e, também, quando falam da teoria do tempo, do Deloren, o professor de Física não o acompanha no raciocínio. Há também uma teoria dele a respeito dos smurfs. São coisas que ele vê, toma como óbvias, e as pessoas não entendem. O livro da filosofia do tempo é algo que ele queria ver, como se estivesse sendo compreendido.

No filme, ele escapa de um acidente. Uma turbina de avião cai exatamente em cima do seu quarto. Ele estava dormindo num campo de golfe, por causa de seu sonâmbulismo. A partir daí, ele descobre, por Frank, que faltam 28 dias para o fim do mundo. Chega um escritor, John Cunningham com uma filosofia do Medo x Amor, ele conhece Gretchen, uma aluna nova, que vive sob custódia do estado, em programa de proteção à testemunha (pós tentativa de assassinato da mãe pelo padrasto). Eles se apaixonam, e ele descobre que, em torno dela, há toda uma cadeia de acontecimentos e situações que só poderiam ser mudados se fosse possível mudar o tempo. É por isso que ele obedece ao Frank, por acreditar que está evitando o lado ruim dos fatos, como se ele fosse um instrumento de mudança e importante para as pessoas. E a gente vê, inclusive na cena em que ele afronta Cunningham, acusando-o de anticristo, recebendo aplausos dos colegas, de como ele se torna celebridade ao sobreviver ao acidente, dos amigos, pessoas que admiram sua inteligência e influência.

Após o tempo de 28 dias, começa-se a ver a visão "real" dos fatos. São apresentados todos os personagens, como ocorreu o acidente da turbina, e todo o filme é fruto de uma alucinação sua e, inclusive seus amigos, imaginários, da mesma forma que o Frank. Ele era uma pessoa sozinha, desconhecida, que fantasiava a respeito da própria realidade.

*Destaque pra trilha sonora: Echo and the Bunnymen, Tears for Fears, Duran Duran,  Michael Andrew e Gary Jules.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Como se vê o mundo?

Eu não espero que alguém venha me visitar aqui. Não divulguei o blog, nem olho se tem comentários (nem sei se a gente vê post por post, ou se eles avisam quando a gente loga). Muitas coisas que a gente fala devem ficar só pra gente mesmo. Quem quiser saber que venha procurar. A internet é um espaço público e basta pôr no google, que, se você der sorte de ter criado um título criativo, haverá um link do mundo pra você. Aí, o mundo te enxerga. Não sei se eu quero isso.

Hoje, eu vi o blog de 3 nulidades da elite artística brasileira : Leandra leal, Luana Piovani e Carla Perez. Esta última é a que tem um blog melhor. A Carla Perez não tenta ser uma coisa que ela não é. Ela é simples, não teve bom estudo, mas não finge que teve e se expressa da forma que ela sabe. Eu acho isso bonito. Ela tem uma vida voltada para o que ela acha certo, pra família dela, para as “associações de caridade”. Tudo que ela escreve é dela, apesar da cafonice dos giffs, desenhos. E pasmem: levando-se em conta o grau de escolaridade e a quantidade de coisas, posso afirmar que ela tem menos erros de português que as outras duas. E quem tem fama de burra é ela.

A Luana e a Leandra gostam de escrever bonito, de copiar idéias, fazer poemas. Demonstrar conhecimento. Atrizes e atores brasileiros adoram isso: mostrar que lêem Nietzsche, Freud, Hegel e entendem perfeitamente. Da mesma forma que lêem e entendem a coluna do Veríssimo no Globo. E eu ainda acho cafona indicar clássicos pra quem lê um blog. Primeiro, porque não é leitura cotidiana e, segundo, porque é resultado de estudos e análises que implicam em você ler outras opiniões pra se encaixar dentro do que um ou outro autor pensa. Às vezes, só se faz isso na faculdade. Mas ali, a intenção é só inflar o próprio ego. E mostrar que lê difícil.


Enfim, era isso; as primeiras percepções do dia. E arrumando desculpa pra me manter ocupado. No dia que eu achar que isto pode ser útil pra alguém , eu me empenharei.
Por enquanto, até aqui, é segredo.

*16-08-2007

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Na natureza selvagem (2007)


Este filme, do Sean Penn, conta a estória de um jovem ,vinte e poucos anos,recém formado, que abandona família e todos os luxos pra seguir a filosofia “easy rider” natureba. Ele acredita que a felicidade é possível de ser alcançada sozinho com a natureza. Pra isso, se desvencilha do dinheiro, identidade, e segue anônimo numa jornada até o Alasca que durou 2 anos.

Embora seja algo discutível, o filme toma uma visão crítica do comportamento do garoto. Não chega a enaltecer sua atitude, tornando-o herói. Pelo contrário, a todo momento, existe um questionamento a respeito da ética dele. As pessoas que ele vai conhecendo no percurso, que o acolhem, o ajudam, discordam de vários pontos de sua forma de pensar. Um deles, o chavão da fuga da sociedade para a natureza, do individualismo burguês, busca da felicidade, da bondade do ser humano , etc. Tudo perdido em função do dinheiro. Aí, é que está um ponto importante do filme: ele conta com a solidariedade de desconhecidos, não se comunica com a família e não se apega a ninguém. Ele se mantém sozinho e assim permanece, sem qualquer vínculo. Nem mesmo o nome verdadeiro.

Daí, a moral indigesta do filme: a felicidade só é real, se compartilhada. Mas também poderia ser que ética não é algo individual, como também a civilização não se opõe á natureza.

É um filme muito bem retratado, com uma trilha especialmente composta pra ele,muito bonito de ser ver, o diretor capta bem o “espírito aventureiro”e, embora não haja intenção de questionamentos políticos, mas apenas retratar uma história real, é importante, que o espectador veja por este ângulo: da ética. E daí, forme sua própria opinião.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sra. Ironia

Sonhei que a gente estava falando sobre reservas de cotas pra hipossuficientes no céu , para as quais eu havia entrado. Você tinha acabado de saber que tinha um céu só pra você. Eu disse "que legal!" e você que não gostou porque só tinha graça se tivesse com quem dividir. Eu disse :"ainda bem que quem vai pra cota não precisa escolher".

Então, você me disse que era por isso que eu estava nas cotas: o lugar de quem não sabe escolher. E, como quem tem o próprio céu não pode escolher cotistas, não poderia me escolher. Eu disse: "obrigado, amor, bom saber que tem alguém com seu próprio céu que me escolheria pra dividí-lo". E você: "Bom por quê?, você merece ter um céu só pra você" Aí, eu disse :"não, porque, pelo que você disse, eu não saberia escolher com quem dividí-lo. Seria mais fácil não ter o céu".


Aí você achou que eu a queria como hipossuficiente tb. Eu disse que é fácil dizer que daria metade do seu céu pra quem não poderia dar (a gente sempre briga).

Moral da história: "Amor, com você, o céu não vale nada!"

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sobre ética, violência e liberdade

Eu odeio o pensamento que defende leis punitivas como forma de conscientizar o ser humano. Como se o pensar respondesse a estímulos como reflexo condicionado. Negar a espontaneidade, a liberdade do pensamento e querer que o ser humano passe a agir a partir do medo da punição é um resquício da ditadura, da ética da violência educadora legitimada pelo Estado na nossa sociedade. Como se pudesse o Estado interferir na liberdade das pessoas de forma repressiva, em vez de educadora, quando a formação cultural do indivíduo é construída, não imposta. Você aceita as leis da físca, matemática, biologia, mas a sua conduta ética é construída a partir dos valores que você mesmo pondera.

Matar é reprovável e dá cadeia. Se você mata, você sabe que vai ser punido. Mas o animus de matar se sobrepõe, naquele contexto, às consequências. A punição existe porque a vida é indisponível e porque o Estado de Direito faz uma valoração entre o que motivou o homícidio, o direito da pessoa que foi morta e as consequências do crime para a vida de quem matou. Não é todo homicídio que vai ser punido. E justiça é a vinculação do direito à ética.

Quando eu falo de ética, eu falo do agir segundo o que lhe é ensinado. Do tópico referência. Do que é CONSTRUÍDO e não condicionado. Você passa a agir quando se conscientiza das suas ações. Quando você valora, põe ato e consequência na balança. Existe liberdade de agir, mas a consciência está a partir da educação do indivíduo, da forma como ele se percebe no meio social, e no que ele aprende com a vivência de suas próprias condutas. "Aprender a viver que é o viver mesmo"*. E você aprende quando erra, inclusive. O ser humano muda de pensamento, de postura e de forma de lidar. Ele muda de acordo com o contexto em que ele vive e uma ação sua em si não define ninguém.

Até aqui, eu falei de indivíduo, não falei de coletividade. Falei de ética individual, mas, de igual importância, existe a ética social, que é muito mais complexa e transindivivual. . Seja a coletividade representada por um chefe de Estado e seus parlamentares ou por líderes religiosos, o que há em comum é a construção do pensamento. A partir do afinamento de idéias. formula-se leis de comportamento que o indivíduo opta por agir. Lógico que o Estado abrange um espaço e uma complexidade muito maior que a de uma Igreja, por exemplo, mas nem por isso, ele é mais importante pra todas as pessoas. Você não pode chegar para um religioso e dizer a ele que o Estado é mais importante que Deus, que as leis e o ordenamento jurídico são mais importante que a Bíblia ou o Alcorão. Pra ele, não é, mas é claro que não se pode ter oposição direta de ambos os lados. O Estado, por exemplo, cede à obrigatoriedade do serviço militar, quando a religião não permite. Existe aí uma valoração. Uma igualdade.


A palavra mais importante para o Estado de Direito é a valoração. Condutas se relacionam a bens jurídicos, que são tudo aquilo que o Estado considera importante e deve ser preservado: vida, liberdade (de expressão, religiosa, de ir e vir), a dignidade da pessoa humana. Mas existe uma tão importante quanto que o Estado negligencia, que é a educação. É dela que se forma o pensamento do ator das condutas e se constrói o papel que o indivíduo exerce na sociedade, o que se entende por socialização.

A educação determina, primeiro, o cidadão que você é em relação ao Estado e aos outros iguais a você. Depois, ela vai dizer qual o seu papel no sistema social. Médicos, advogados, professores, são diferentes pela educação. Para a conduta de cada um, haverá leis especificas, que levam à construção da ética profissional que é aplicada e fiscalizada pelas entidades de representação profissional de cada classe. Um médico é um cidadão como qualquer outro, mas esta condição faz o Estado exigir dele condutas para com outros cidadãos que não exige de um advogado e vice-versa. Por isso, eles não são tratados em todos os casos como cidadãos comuns.

O problema da nossa sociedade hoje, é que as pessoas precisam se sentir diferenciadas, por uma questão de autodeterminação. A ética de atuação é a dos grupos sociais e eles acham lógico atuar a partir da demarcação de limites da liberdade. Pra política, é prato cheio. O erro da atuação dos grupos sociais é ser contraponto, se auto afirmando como minorias, na acepção de hipossuficientes, carentes de uma valoração postiva do Estado. Só que não existe a construção do pensamento dessas pessoas para as suas condutas. É o oposto: dos demais, dos quais eles se diferenciam, deve existir uma exigibilidade de conduta ética pelo Estado. E falam isso em nome da liberdade, ou seja, pra que a liberdade deles seja plena, é necessário que a dos outros seja limitada.

E, diante da impossibilidade da construção desse pensamento a partir da educação, o caminho mais fácil é o da penalização, vista sempre como punitiva, nunca educacional ou (res)socializadora. É inegável que é legitimação da violência impor pelo medo de ser punido., por ser oposição à valoração, o mais importante do Estado de Direito. Aliás, nem é ser Estado de Direito.

*Guimarães Rosa, em Grandes Sertões Veredas


sábado, 3 de abril de 2010

O Segredo dos seus Olhos (2009)

Estamos tratando de um filme argentino que ganhou o Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro. Filme que trata de amor.Melhor: da conduta amorosa. De como vemos uma pessoa que ama na sua plenitude. São duas histórias entrelaçadas, duas formas de viver o amor: renúncia e o auto sacrifício.

Ricardo Darin vive Benjamin Espósito, que trabalha numa espécie de corte criminal, onde ele é um escrivão. E surge um caso de um assassinato de uma mulher em que ele trabalha: ela foi estuprada e morta. Ele conhece o marido da vítima e fica fascinado pelo amor que ele sentia por ela. A ponto de ele apenas sobreviver, não encontrando sentido em nada, a não ser esperar pelo assassino de sua mulher na estação do trem*. Espósito também é escritor amador. Tenta há anos criar uma história, mas nunca cosnegue inspiração porque ele mesmo, ama uma mulher há anos, mas não tem coragem de se declarar, e ela percebe isso. Envolvido com o caso, ele consegue encontrar o assassino, que tem uma série de conchavos políticos, e o governador, a quem se subordinava a tal corte criminal solta o assassino, que seria condenado, réu confesso ainda por cima, a prisão perpétua.

Ao saber que o assassino está livre, Morales entra em desespero. Fica indignado, e Espósito vê que a vida dele parece que não vale nada. Tenta de todas as formas colocar o assassino na prisão, motivo que faz com que ele sofra um atentado, onde morre um grande amigo no seu lugar, fugindo de trem para uma outra cidade. Passam-se 25 anos. Espósito,então, vai visitar Morales. Ele vê numa casa isolada, de quintal, um homem de vida vazia, apregoado ainda ao passado, inerte. Uma pessoa frágil completamente diferente daquele homem que conheceu 25 anos antes. E ele desconfia muito do que teria acontecido, o que o levou àquele conformismo.

E aí é que chegamos ao ponto mais importante do filme. A quem ama, o sofrimento do assassino nunca será o bastante. E Morales dizia que era contra a pena de morte por ser um abreviador do sofrimento do apenado. Que a prisão pépetua do assassino seria uma equiparação do sofrimento que ele passaria por perder quem ama. E Morales se vingou, capturou o assassino, levou-o para o lugar onde vive durante 25 anos e o aprisionou. Sem nunca falar com ele. Fez justiça pelas próprias mãos.

O filme é sutil, mas explicita os efeitos do amor não vivido. É óbvia a identificação entre Espósito e Morales: a privação de viver um amor. Um, pela própria decisão, outro, por circustâncias alheias a sua vontade e isso serve pra que Espósito se declare à sua amada e repense sua segunda chance. Ela casou com um homem rico, teve filhos e ele teve sua vida estagnada. A pessoa sobrevive: não constrói, não melhora, fica entregue ao tempo. Da mesma forma que um prisioneiro fica em relação à prisão durante o cumprimento da pena. Todos perdem.


O filme é uma readaptação de um livro. É muito bem dirigido. Vale muito a pena. Também, frise-se: a violência em si não se justifica. Embora a ética de quem ama seja transindividual, digamos assim, a natureza do sofrimento do Isidoro Gomez, o assassino, tem uma outra natureza e é igualmente absurda.



*durante o filme, surge um suspeito, que conhecia a vítima há anos, que parecia ter obsessão por ela, mas que nunca tiveram nada. Ele se sentia preterido, amor não correspondido.