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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

"A fraternidade é vermelha"


Último filme da trilogia. Trata da estória de Valentine. Personagem que representa a fraternidade. Modelo, vive sozinha, mas mantém seu vínculo com a mãe e com o irmão - viciado em drogas- e um conturbado namoro com uma pessoa que não a ama. Preocupa-se com os outros sem pedir nada em troca e, assim, que ela conhece o juiz. Ela atropela a cachorrinha dele e a leva para casa dele. Diante da recusa do juiz em ficar com a cachorra, ela a leva ao veterinário, para casa.E depois volta á casa do juiz, ao ver que ele lhe deu o dinheiro pra tatar do cachorro. Devolve-lhe o que falta, apresentando a notinha. E tal fato o supreende.

Quando entra em sua casa, descobre que o juiz bisbilhota a vida dos vizinhos, através de escutas telefônicas. Fato que, claro, ela repudia, mas não entende a princípio e, diante da chance de entregá-lo, hesita, volta para a casa dele. Ela compartilha com ele o segredo, ao mesmo tempo que vai surgindo uma amizade e ambos vão contando seus segredos.Ela representa pra ele o que ele buscava numa mulher. Uma esperança que veio tarde. É como se um merecesse o outro, mas é tarde demais. E, paralelamente, um juiz está se formando, passando nas provas e tem uma estória idêntica a do juiz aposentado.

O que o filme quer passar é que, diferente dos outros dois, onde o protagonista sempre está presente nas cenas, existem mais pessoas assim no mundo. Perto de nós, mas não a percebemos. Fraternidade representa amor ao próximo. Ajudar sem interesse. E, por não nos encontrarmos com elas, pensamos que elas não existem. E o juiz vive assim, desacreditado no ser humano. Por ser observador, sabe como são as pessoas, não se surpreende. E já acha falta de modéstia julgar. Que, pra ele, inclusive, quer dizer pôr-se no lugar dos outros, sabendo que jamais estaria.

E quando ele vê em Valentine alguém como ele, sente um amor platônico, percebe que não é correspondido além da delicadeza de um sentimento fraternal. Retribui apenas o que lhe é dado, claro. O jovem juiz tem uma estória idêntica, pensamento idêntico ao dele, talvez, um desejo de que tudo dê certo , que é possível, não sonho. Que certas coisas nos acontecem ao acaso*.

O filme também marca o reencontro das três personagens principais da trilogia. De um naufrágio, onde eles são sobreviventes e de onde recomeçarão suas vidas.


* É sugerida uma troca de olhares entre Valentine e o jovem juiz Auguste. Talvez eles tenham um relacionamento, talvez não. A idéia é de levantar a possibilidade que sempre existe, como várias vezes, o juiz pode ter passado e não percebeu.

* A pedido de Valentine, o juiz se entrega à polícia. E a vizinhança passa a jogar pedras em suas janelas. Alusão literal ao ditado "hoje é pedra, ontem era vidraça"

domingo, 12 de outubro de 2008

"A liberdade é azul"


Trata-se do significa de liberdade. Que, para o ser humano, quer dizer independência, desapego às conveniências, submissão a constragimentos físicos ou morais. Julie representa isso: um ser livre. Todo o significado dicionarizado de liberdade será uma característica dela.

No início do filme, ela é a única sobrevivente de um acidente de carro, no qual morrem seu marido e sua filha. Ela tenta se matar, mas não consegue. Sente a dor de perder pessoas que ama. Rica, volta para a mansão onde vive e depara-se com a solidariedade dos empregados. E, generosa, dá-lhes tudo que herdou do marido, vivendo apenas do que ela tinha em sua conta pessoal. Garante a vida da empregada, do jardineiro, da mãe. Tenta livrar-se das lembranças e do que remetia à sua família, põe a casa à venda e vai morar sozinha, sem deixar rastros. Ela tem alguém que a ama: Olivier. E ela sabe que ele a ama, ela cede a ele, mas por uma uma noite. Faz-lhe café de manhã e sai. A imagem que se tem dela é de ser uma mulher inabalável, que não sofre, não sente dor - ela se fere, correndo a mão num muro-, mas falta lágrima. E sua atitude é livrar-se de qualquer vínculo com as pessoas, que, segundo ela, é armadilha.

Ela aluga um apartamento. Num dia, fica com a porta trancada fora de casa, quando vê que uma vizinha, prostituta, recebe homens no seu apartamento. E os outros vizinhos a condenam e fazem um abaixo-assinado para sua expulsão do edifício por receber homens em casa. Manifesto que July não assina porque "não é da sua conta" o que a vizinha faz. Não faz julgamentos, não compartilha do constrangimento moral feito pelos outros condôminos à sua vizinha prostituta. E, além disso, num outro momento, a pedido da então amiga, vai ajudá-la a recuperar-se do choque de ter visto o pai entre os homens na casa de prostituição e striptease em que trabalhava. Mesmo gostando do que faz, ela mesma se condena. E Ela diz: "salvou a minha vida" , por ter sido alguém com quem ela pôde contar. E ela não tinha ninguém.

E, mesmo tendo a intenção de livrar-se dos arquivos do marido, amigos em comum salvam documentos, fotos e uma partirtura inacabada. Ele era músico ,famoso, e estava a compor uma ópera. Ela não queria descobrir segredos do marido, vincular-se ao passado. Mas há necessidade de se assegurar a algo e, muitas vezes, há pessoas que precisam de nós. E ela descobre a amante que esperava um filho de seu marido*. Decide dar-lhe a casa, para assegurá-la de criar bem o filho. Esperava-se ódio dela, mas ela não o tem.

E, durante o filme, uma música vai sendo composta, o último gesto dela em relação ao marido. A constatação de sua generosidade. Ela e Patrice ficam encarregados de terminá-la, mas é feito de tal forma que eles a refazem totalmente. E ela tem um amor, de Olivier, que a esperava durante todo o tempo.

E, no final do filme, aparecem todas as pessoas que foram agraciadas por sua generosidade.

A liberdade é isto: o desapego, a desvinculação de qualquer coisa, pessoa, sentimento que o façam a fazer algo que não quer, ou porque lhe é imposto. É a opção por fazer por vontade.

*Interessante o simbolismo do amor do marido de Julie usado por Kieslowski. É uma cruz numa corrente que tanto Julie quanto a amante carregavam no pescoço. Ele dava pra quem amava. É um vínculo criado. Com a morte dele, o vínculo com Julie se rompe, mas, com a amante, existe um bebê. Ela esquece o vínculo, a corrente que arrebentou durante o resgate. E um rapaz tenta deveolvê-la. Ali fica o simbolismo do fim do luto. E o recomeço.

** O filme todo tem um aspecto visual azulado, a água representa o renovação, renascimento - ou recomeço- de Julie. E o filme é a representação de sua liberdade e de como ela recomeça a vida. No final ela chora.