quarta-feira, 1 de junho de 2011

Estamira (2006)





Há muito tempo, eu queria falar desse filme. Estamira é um documentário brasileiro sensacional, que trata de um dos temas mais interessantes que eu tenho estudado. Foi um filme polêmico, muito criticado quanto à ética, por ter como protagonista uma esquizofrênica e expor sua vida para o mundo. Isso é algo de que eu discordo totalmente, porque, antes de ser um filme que trata de um doente, é um filme que trata da forma mais respeitosa possível um assunto que é bem mitificado pelos filmes de terror da atualidade. O fascínio das pessoas pela esquizofrenia se dá de forma negativa, porque acham o máximo ver reproduzidas as visões paranóicas, os pesadelos, a violência do tratamento com eletrochoques, mas, da doença em si, da informação a respeito dela, e, principalmente, da ética médica atual para tratá-la, poucos sabem. O esquizofrênico, vulgo, louco, é marginalizado. Ele não desperta sensibilização dos outros e quem assiste "Estamira" não tem como não se emocionar com a retratação (a fotografia do filme é sensacional) do drama da protagonista.

Estamira era uma mulher religiosa que se casou duas vezes e teve três filhos. Ambos os homens que teve não a respeitavam como mulher. E, após a morte do seu segundo marido, um italiano, ela começou a questionar a vida, Deus, e o desrespeito que os homens têm entre si, a partir de sucessivos atos de violência pelos quais passou. Você vê sofrimento na forma dela se expressar e do quanto ela vê como ridícula a submissão do homem, tão esperto e astuto, a um Deus, que mais parece o trocadilo, a inversão dos seus próprios valores usada para domesticar, escravizar e abdicar da sua condição de ser pensante e tão superior aos outros animais.

Depois de ter sido internada num manicômio, ela teve que se submeter às medicações. E ela morre de vergonha disso porque é algo a que ela se obriga, ela se vê dominada pelos cientistas, que só copiam, só aplicam o que lhes é ensinado. Ela não vê sentimento ,nem fé nas pessoas.Ela viu que sua vida não tinha sentido, se refez, e durante todo filme discorre sobre isso: do abandono por parte da família; das escolhas que fizeram por ela.; do lixão de Caxias, de onde ela tira seu sustento.

Há metáforas geniais, o discurso dela em si é fascinante. E, principalmente, durante todo o ano em que ela foi filmada, são registrados os efeitos da medicação e do tratamento psiquiátrico. Esquizofrenia é uma doença incurável e crônica. Estamira não vai ser igual aos outros, então, ela se reafirma em si própria.


Eu separei algumas frases do filme pra deixar registrado.


"Sou Estamira, FORMATO HOMEM PAR. As mães são par, impar são os pais. Os homens. Vocês."

"Sou ser Consciente lúcido, ciente e sentimento."

"Eu transbordei de ficar invisivel com tanta hipocrisia e perversidade. Com tanto trocadilo. A culpa é do hipocrita mentiroso, esperto ao contrario."

"Vocês não aprendem na escola. Copiam, aprendem com as concorrências. Tenho neto de 2 anos que já sabe disso que não foi na escola copiar mentiras e charlatagens."

"O tal do diazepan, então, se eu beber diazepan, eu, que sou louca, se eu beber, fico mais louca. Só copiam. Ela falou que se deus livrasse ela, o trocadilo é ela!"

"Cometa sgnifica comandante natural."

"Tudo aquilo que é imaginario existe e é e tem? Pois é. Nunca tive aquilo que eu sou: sorte boa."

Ela falando do lixão: "Isso é deposito de restos. As vezes também é descuido: resto e descuido. Quem revelou o homem como unico condicional, ensinou-o a conservar as coisas, que é proteger, lavar, limpar e usar mais o quanto pode.

Você tem sua camisa. Você esta vestido, está suado. Você não vai jogar sua camisa fora, não pdoe fazer isso. Quem revelou o homem como unico condicional não ensinou a trair , humilhar, não ensinou tirar. Ensinou a ajudar."

"Economizar émaravilhoso.Quem economiza, tem. O trocadilo fez as coisas de uma tal maneira que, quanto menos elas têm, mais elas menosprezam. MAIS ELES JOGAM FORA."

"Eu, Estamira, sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim. Eu me sinto orgulho e tristeza por isso."


Parabéns, Marcos Prado.

Falácias

Detesto discursozinhos retóricos. Acho que você pode ter a opinião que for, mas desde que seja coerente com o que você pensa, não adaptada aos discursos dos dos outros que você defende. Sou advogado. Isto está no meu sangue, então, vai ser meramente institivo analisar o discurso de alguém e pescar a originalidade dos pensamentos. Eu vejo isso no Bolsonaro, não vejo no seu opositor Jean. Detesto o termo heteronormatividade. Detesto reducionismos com base em estereotipização da oposição.

Basear-se em direitos humanos é algo extremamente complicado porque sempre que você os invoca, você vai defender uma relativização e, para a democracia, isso só é relevante a partir da análise imparcial e neutra. Não dá pra você gritar que seus direitos humanos são ofendidos e querer que o Estado compre suas idéias e as coloque num patamar acima dos direitos da maioria das pessoas. Direitos de natureza diferentes. E isso nos argumentos ad hominem está sempre fundamentado em dados estatísticos que a minoria vai dizer que se dá por falta de informação. Odeio empirismos em discussões porque dão sempre margem a discursos falaciosos. A pessoa se dá autoridade pra impor porque contra fatos, não há argumentos e a gente fica naquela velha história de se perder tempo com uma coisa que não está aberta à discussão.

Na faculdade, tive uma professora, chamada Maria Arair, que disse uma das coisas mais relevantes da minha vida:"se você não está aberto a mudar sua opinião, nem comece o discurso". E é assim que eu vejo os anseios políticos das frentes pró-minorias. Não são discutíveis, porque são levados a status de urgência. Não há democracia aí. Isso só comprova a teoria furada dos direitos humanos usados em vão pra relativizar interesses privados. Liberdade num estado democrático é ilusão porque democracia é uma palavra feia, que gera palavras feias. E uma palavra que certamente não rima com ela é respeito.

E o Jean Wyllys me incomoda porque ele é uma farsa. A causa que ele defende é ele mesmo. O seu recalque de não ser unanimidade em reconhecimento. Ele é uma pessoa que pensa ter nascido pra receber aplausos porque ganhou Big Brother. Ele dá "sustentação" à sua luta porque recebeu ameaças de morte pelo twitter. E ele está na câara, apesar dos 13 mil votos, por causa do Chico Alencar, mas quer fazer diferença, mesmo que a sua existência como deputado não esteja relacionada à representatividade.

Não vou postar a entrevista dele na Marília Gabriela, porque este assunto se encerrou com o pronunciamento da Dilma semana passada. Só isso.

sábado, 14 de maio de 2011

Bolsonaro x Câmara

Quando eu postei sobre o modelo de democracia agonista, da Chantal Mouffe, que trata de globalização e cidadania democrática, falei a respeito da incompatiblidade deste tipo de modelo com o nosso. O Caso Bolsonaro x Gays na Câmara representa, ao mesmo tempo, o contraponto desta teoria e o que defende a democracia atual.

Primeiro, Bolsonaro, antes do seu conservadorismo, neste caso, representa o antagonismo. E, com ele, vemos duas consequências imediatas que não só põem por terra a teoria da cientista política acima, como também reforça o quão oportunista é a representatividade dos gays no legislativo e a falta de identificação política com a população em geral. Estou falando dos 84% de aprovação popular ao Bolsonaro da pesquisa do Estadão, e da tentativa de se reivindicar legitimidade absoluta a uma subcultura e um grupo que pleiteia, não a igualdade, mas a sobreposição de valores.

Quando o STF começou a discutir a respeito da união homoafetiva, a câmara pôs em discussão a Lei de Criminalização da homofobia, da mesma forma, o MEC veiculou Cartilha LGBT. Eles aproveitaram o momento em que o órgão máximo do Judiciário brasileiro conferiria constitucionalidade a idéia de família homossexual para lançar à população a desconstrução da heteronormatividade*.Não é fácil domesticar a hostilidade em pessoas formadas, então, o caminho mais "certo" seria acabar com o antagonismo potencial, criminalizando as condutas antigays( Lei) e inserindo no currículo escolar infantil e adolescente os valores identificadores da cultura gay. A transformação do ELES em NÓS.

Não há que se falar em universalização e neutralidade quando se tem um grupo minoritário frente a uma maioria com valores diferentes. Não é a nossa cultura que é heterocentrada, apenas, mas a cultura gay que é paralela e independente. Não é o mesmo que se inserir informações a respeito da histórias dos negros e índios na formação do país, que é fato, principalmente porque somos mestiços e nossa ética engloba valores preconizados por negros, brancos e indígenas. Grupos que estão inseridos e seus costumes absorvidos por um meio muito maior. E o mais importante: não há incompatibilidade direta com os valores em que a sociedade sempre se norteou. Não há outro meio de convívio comum sem que haja a absorção. Preservar totalmente os valores indígenas, por exemplo, só implicaria no isolacionismo - que existe - e numa relativização da sua capacidade frente à sociedade.

Os gays compõem uma subcultura muitas vezes crítica, áspera, e eu diria até antiética, a valores que a sociedade toma como válidos. Lady Gaga representa uma violência à liberdade religiosa, por exemplo. Os representantes dos movimentos homossexuais, muitas vezes, dão declarações extremamente ofensivas à moral, religião e a liberdade de muitas pessoas. Eles representam justamente o antagonismo. E, aqui, neste exemplo, vê-se intolerância também. Toda vez que se nega a manifestação do outro, age-se com intolerância. E quando se está diante de uma maioria, a sensação imediata que se tem é a de marginalização, mas ela, muitas vezes, é reacionária, provocada pelos próprios homossexuais. Homofobia é o nome que eles dão a isso: negação da subcultura, não necessariamente isto se relaciona a um indiíduo, ou a um direito individual. Um homossexual pode existir na sociedade sem apresentar aqueles indícios visuais identificadores,mas ele não pode deixar de fazer parte da subcultura. Quando ele se manifesta, naturalmente, ele se diferencia e a ideologia gay se firma justamente no ser diferente no meio de iguais. E isto não é motivo pra se ter orgulho. O Clodovil pensava assim e era taxado de homofóbico.


O STF, ao reconhecer a união homossexual, fez uma interpretação conforme a constituição(neutralidade) à uma situação fatídica, cujo não reconhecimento trazia agravos à condição de ser humano. Pessoas viam sua liberdade, integridade, dignidade, e seu patrimônio injustamente afetados porque judicialmente e legalmente eram vistos como inexistentes. Nosso ordenamento dizia que não existiam direitos civis a gays e lésbicas. Era ridículo e a condição de casar-se com alguém do mesmo sexo só diz respeito aos indivíduos envolvidos,e ao que eles construirem juntos**. Direitos PRIVADOS. E, apesar do voto efusivo e político do Ayres de Britto, isso não quer dizer que nosso ordenamento incorpore a subcultura gay à constituição e defenda sua inserção à sociedade como um todo, porque tiraria a função precípua de mediador do judiciário.

O Comitê de Direitos Humanos quis universalizar os direitos gays de forma a se tornarem direitos fundamentais, e não contidos no direito de liberdade expressão. O reacionário Bolsonaro bateu o pé. Desta vez, com razão, porque, em muitos itens visavam privilégios, seguindo a linha de discriminação positiva a uma particularidade, fazendo com que ela se valha de força estatal para se sobrepujar à manifestação do outro. São assim também a Cartilha do MEC e a lei de criminalização da homofobia.





*Terminologia adotada pela própria cartilha
do MEC.
** Clarividente, que aqui se fala da questão de bem. Que o conceito de família vem mudando ultimamente justamente pela questão da penhorabilidade. Até família monoparental, o direito concede por uma questão de razoabilidade. Não é uma questão social. No caso do concubinato, por exemplo, havia uma discriminação em relação à mulher e ao filho bastardo, que só foi modificada em 2002, com o NCC. E isso tem consequências desastroas, como o caso de qualquer relacionamento passar a ser considerado união estável. Ficam as partes protegidas apenas pelo "antes". "Depois a gente, no caminho de casa, passa no cartório e acerta". Basicamente é isso que a união estável reconhecida significa pra todos. Só que regime de bens só é discriminável no caso hetero, porque ainda não existe lei pra isso nos cartórios.


sábado, 9 de abril de 2011

(Nós x Eles)²

Pela enésima vez, vemos crianças pagando pelos erros dos adultos. E o que aconteceu com o Welington e as crianças assassinadas por ele é consequência de atitudes e omissões dos outros, que deveriam fazer e não fizeram. Estou falando de pais, educadores, policiais, seguranças. Pessoas que estão pra ensinar e proteger. A violência que vimos esta semana é consequência das distorções de papéis, do medo da responsabilidade e do pragmatismo dos nossos governantes e da política educacional do Brasil*.

Eu entendo sinceramente a revolta, o ódio, indignação, tristeza das pessoas, mas não entendo a surpresa. Supresos com o quê? Aonde que esta tragédia é inédita, inesperada? E digo mais:poderia ter sido evitada, se as pessoas cumprissem com seus papéis na hora que têm que agir. O vilão da história passou boa parte da vida, época em que se constrói caráter, sendo humilhado e teve sua dignidade reduzida a nada. Sofreu reiteradas humilhações, repúdio dos outros como ele, e tudo isso negligenciado pelos "adultos" próximos. Tinha tratamento com psicologa que não o encaminhou para um psiquiatra, tendo em vista que ele era esquizofrênico., que deixou por ele, um incapaz, escolher se deveria continuar com tratamento ou não.E olhe que vivemos sob uma constituição e um idealismo que coloca a dignidade da pessoa humana como príncipio de tudo. O que vem antes, é o que significa a palavra príncpio. Isso que tem que ser investigado no Wellington.

É indiferente saber quem o matou ou se ele se suicidou, como também existe indiferença em relação ao sentimento dos outros. Eu penso que- quando você menos presa a existência de outro ser humano, e o coloca como ele se vê abaixo do mínimo, você se torna responsável pela violência que ele venha a cometer. É bonitinho ver Saint Exupery e a história do pequeno príncipe com a raposa, mas o contrario sensu também é verdade. E a raposa, no nosso mundo real, não tem a mesma fama que a do livro. É ironia fina.

O vilão, quando morre, acaba a história. O atirador morreu, aí as pessoas começam a ficar perplexas, indignadas, revoltadas com a crueldade e com todo imediatismo da situação. A história do atirador começou na hora em que ele entrou na escola e terminou quando ele morreu. De resto, é preciso apenas saber quem deu as armas, e se iniciar toda uma política de desconstrução e desumanização dele, junto com as famigeradas passeatas pela paz. Não se discute violência no nosso país porque não se discute ética. Somos um povo que vê as coisas sob olhar acusador, porque,de outro modo, humanizaríamos os vilões e, assim, nunca teríamos a reação de estarmos lidando com casos bárbaros como se fossem inéditos.

E todos os casos de repercussão são vistos como novelas. O suposto policial que matou o suicida é tido como herói. A violência começa com as mortes e terminam com o fim do inquérito policial. É o prazo em que as notícias se exaurem e cansam o telespectador.É mais ou menos esta a sensação que me dá.

Antes do incidente, Wellington não era nada, e agora ele é um assassino. Então, humanizemos os Wellingtons antes que eles se tornem assassinos. Não tratemos crianças como apenas crianças,mas seres humanos em formação. Tudo isso poderia ser evitado e ainda se pode evitar pra outras pessoas futuramente.

A diferença entre o herói e o vilão, é que, ao herói, é ensinado a olhar pelos outros, e o vilão se vê obrigado a olhar por si, por não ter quem olhe por ele.

*Basta que se analise a entrevista com o colega de classe dele, enquanto estudavam lá.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Discurso do Rei (2010)



Campeão de indicações ao Oscar e ainda conseguiu me surpreender. É um filme com estória simples. Trata do rei George VI (Collin Firth), que tinha sérios problemas de gagueira, que inicia tratamento, a pedido de sua mulher, com Lionel Logue (Geoffrey Rush), um fonoaudiólogo alternativo, que o trata e o faz desenvolver seus discursos.


Uma coisa que eu acho engraçada nos filmes ingleses é a humanização que eles fazem da família real. Eles tentam sempre colocar a família real com, o se tivessem uma vida absolutamente normal e simples como qualquer outra família de comercial de margarina. Papai, chamado de "papa", que conta estorinhas infantis pras criancinhas, cheias de mensagens de ética e amor. E a esposa dedicada e simples, que não se importa de tomar chá sozinha na casa de um civil, nem de falar normalmente com a esposa do Lionel. Cena ótima, mas Helena Boham Carter, também ótima, fazendo o papel da grande mulher por trás do grande homem. Do irmão de George que abdica do trono, por amor a uma americana adúltera. Outra coisa: ingleses não toleram muito americanos. Eles o colocam sempre abaixo.

Impressionante como a Helena, longe do Tim Burton, é muito melhor. Já é implicância minha com ele, admito. Odeio diretores superestimados e o Tim Burton consegue ser uma porcaria na minha visão. E ele involui a cada trabalho, o que o torna ainda mais irritante. Já ela, não, é uma ótima atriz. No filme, está um pouco caricata, lógico, mas mis pelo estereótipo de nobre inglesa, que propriamente por demérito dela.

Geoffrey é o melhor ator do filme, seguido bem de perto pelo Collin Firth. Ele só consegue curar as pessoas tornando-se íntimo delas, pondo-se de forma igual, um contraste com os médicos reais, cheios de referências e status. Firth fez um gago com traumas na infância, um homem que aceita sua falta de dom para o discurso, cuja gagueira incomoda quem assiste, no sentido de ser doloroso pra ele. Rush já faz o médico louco, carismático, bem articulado, desinibido que sabe se impor e torna-se amigo do rei, à medida que vai ganhando sua admiração. Chega até mesmo a saber de detalhes da vida pessoal do rei, dos traumas de infância, da relação com o irmão e o pai, do desespero dele diante da renúncia do irmão.

A cena final também é perfeita e comovente. Perfeitos o diretor Tom Hooper e o roteirista David Seidler. Não vejo como este filme poderia ser melhor.

O próximo filme que irei assistir será "O Vencedor" pra ver o porquê do Christian Bale ter tirado o Oscar do Rush.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cisne Negro (Black Swan)


Não sei dizer se foi pela expectativa, por esperar muito do Aronofsky e da Natalie Portman, mas não achei esse filme grande coisa,não. Nem o Oscar dela, pra falar a verdade. Ela merecia muito mais pela atuação em Closer do que neste filme. Natalie parece frágil, vunerável. É fácil pra ela ser a Nina, coisa que não seria pra Mila Kunis. Acho que o Aronofsky errou a mão e a Natalie que salva o filme.

Primeiro, achei o filme um tanto machista. A personagem da Nina é uma bailarina determinada, obsessiva, tecnicamente perfeita, que almeja o papel principal do Lago do Cisne. Ela é escolhida após resistir
às investidas do diretor do espetáculo, heterossexual, vivido pelo Vincent Cassel, que quer instigá-la a ser o cisne negro. Ser o que ela não é: sedutora, liberal, invejosa, sexualizada, impulsiva e auto-destrutiva. Uma mulher que despertasse desejo nos homens, sempre predisposta ao sexo. No filme, quem é assim, é a Beth, interpretada pela Winona Rider.

Existe sempre o clichê de que mulher que se dedica ao trabalho, menos aos relacionamentos, é sempre remprimida sexualmente. A imagem da mãe dela representa isso: clichê da mãe invejosa, fracassada que quer realizar seus sonhos através da filha, disciplinando e dominando suas condutas. Como se faltasse personalidade à personagem. Em algumas cenas, fica evidenciada a consciência que ela tinha do papel da mãe na sua carreira, como, por exemplo, na forma como ela reage ao bolo comemorativo por ter conseguido o papel, a briga das duas, quando ela joga na cara da mãe a culpa que ela gostaria que carregasse por ter fracassado. É evidente que a opção da Nina por não ter relacionamentos se liga com o fato de não querer ter o mesmo final que sua mãe teve: engravidar e terminar a carreira. E que o diretor do balé a viu muito mais como um desafio por ela não ter cedido facilmente aos seus desejos, como outras bailarinas fizeram.

Segundo, o filme é uma busca por características que não são da personalidade da personagem, o que a faz criar uma outra. E aí seguem as alucinações, o lesbianismo (mais um indício do machismo), a reificação da mulher. A forma como a Nina vê Lily é completamente distorcida e o que se vê durante o filme é essa desconstrução de personalidade. O que Nina quer, é provar que é uma bailarina perfeita, realizar um sonho, anulando-se por conta disso. O sexo sem pudores é sempre visto, partindo da mulher como algo negro, assim como a realização da arte por ela. E, no filme, é uma forma de torná-la mais interessante.

A personagem da Natalie, dirigida pelo Michael Nichols, foi muito mais perfeita que a Nina do Aronofsky. A Alice de 2004 conseguia ser os dois extremos de forma muito mais convincente, a ponto de as pessoas terem dúvidas a respeito de qual delas era a verdadeira. Fez os outros atores comerem poeira. Só que a dignidade que sobrava na Alice, falta a Nina, porque personagens principais de filmes do Aronofsky são sempre decadentes e auto-destrutivos. E a dupla personalidade, a esquizofrenia, as drogas são sempre inerentes à sua obra, como uso da câmera trêmula sobre os ombros. Partindo dos filmes anteriores, vemos o quanto há de exercício de estilo neste filme e do quanto a Natalie se faz o diferencial. O Oscar para ela representa o quanto do filme se deve a ela.

E as pessoas falam que é um filme do tipo "ame ou odeie". Eu digo que é um filme do Aronofsky de sempre com uma Natalie Portman de sempre. Ele, humanizando personagens bem sucedidos, a partir da desconstrução, e ela, roubando cenas dos outros atores.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Não Me Abandone Jamais (2010)


O filme trata da história de Kathy, Ruth e Tommy. São três amigos que viviam num internato, chamado Hailsham, e que são preparados para serem doadores de órgãos vitais. Eles vivem isolados do mundo, sempre dentro das fronteiras do lugar, cheio de hortas, jardins, lagos, praticam esportes, estudam, são bem educados. Vivem de forma digna, como crianças, inclusive, uma metáfora do filme é que eles praticam aulas de desenho e tem as galerias, onde eram escolhidos os melhores para exposição, com o objetivo de mostrar que eles têm alma. Hailsham era também a última referência na ética dispensada no tratamento aos doadores.

Conforme houve avanço da medicina e várias doenças tiveram cura, a expectativa de vida foi se aproximando dos 100 anos, e, acredita-se no filme, que, uma vez controlada a possibilidade de doenças, o ser humano poderia viver mais à medida que seus órgãos deficientes fossem trocados. E vários internatos como o de Hailsham foram criados, de forma a preparar as crianças para viverem de forma saudável até o dia de início do processo da doação, que se daria em até 4 etapas. Muitos morriam antes, mas, na quarta, a pessoa já vivia em estado vegetativo.

O que chama a atenção do filme, é a falta de humanidade dispensada aos doadores assim que eles saem do internato. Eles viram mercadoria, deixam de ser humanos aos olhos das outras pessoas, que, no filme, as definem como "pessoas sem alma". E, pelos olhos de Kathy, a narradora, e de seus amigos, vamos descobrindo a diferença dos alunos de Hailsham para os dos outros internatos, a partir dos 18 anos, quando eles se mudam para os "chalés" e a eles é dada a chance de conhecerem lugares próximos, namorar, e, depois, irem para os hospitais, após a notificação do centro de doação.

Nos chalés, é que os três confrontam seus sentimentos, o destino que traçaram para suas vidas e a ligação entre eles, prestes a ser rompida. Kathy e Ruth eram melhores amigas, mas a primeira amava Tommy e era correspondida. Com ciúmes da amiga, Ruth se aproxima e começa a namorar Tommy, o que magoa Kathy, que fica sozinha, mas não deixa de ser amiga dos dois.

Diante disso, quando tem uma chance de escolha, Kathy se inscreve para ser cuidadora de doadores, uma espécie de assistente, que lhes dá apoio e os prepara para as etapas de doação, acompanhando-os até a morte. Passam-se 10 anos, ela reecontra os amigos, já em estágio de doação, e tentam resolver as diferenças e, no caso de Kathy e Tommy, reviverem o amor que perderam. Kathy, então, passa a ser assistente de Tommy e visita Ruth com regularidade.

Apesar da resenha, o filme não tem uma história contada de forma clara. Não se sabe nada a repeito dos doadores, do porquê disso, da metodologia dos internatos*. Ele é focado apenas no drama e sofrimento de Kathy. Eles vão descobrindo a respeito da sua origem, mas são sempre boatos. Por terem vivido isolados até os 18 anos, eles têm uma conformação com o destino que os outros doadores não tinham. Eles acreditam serem clones, e que há um duplo deles vivendo uma vida normal. Passam a achar que o motivo das pessoas não os tratarem como iguais, seria o fato de eles serem clones de prostitutas, presidiários, assassinos, menos psicopatas (doença genética).

O mundo deles não permitia que eles tivessem uma compreensão maior e realmente entendessem o que se passava com eles. Você sabe exatamente o que você é e o porquê da sua existência quando sabe qual é o seu destino. No mundo normal, as pessoas diferenciam o tratamento quando sabem com quem estão lidando, principalmente, para colocá-los em seu lugar. A eles não foi ensinado isso, eles não lidavam com o lado mau do ser humano porque não o conheciam. Suas pretensões eram inocentes, como inscrever-se como assistente para poder dirigir carro.

O máximo que eles conseguem chegar próximo de esperança, se dá quando ficam sabendo da possibilidade de Tommy ter adiada sua terceira doação. Ele se torna um desenhista talentoso, mas não mostra sua obra a ninguém. Ele acreditava que, se fossem até a Diretora do internato, poderiam obter concessão, pois ele amava verdadeiramente Kathy desde criança, e isso ficaria demonstrado na arte. E, então, foi-lhe explicado que a galeria de arte existia, não para que fosse lida a alma dos alunos, mas para provar que eles tinham uma, porque não era assim que os outros o viam quando eles saiam.

Kathy se imagina vendo Tommy acenando pra ela após a sua morte. Aí, ela vê que se eles existem para salvar vidas de pessoas que são como eles, que continuarão mortais mas mesmo vivendo por mais tempo, talvez, eles também não compreendam se viveram o bastante.

*Imagine que essas crianças fossem aquelas desprezadas pelos pais, ou, que, por algum motivo, não foram abortadas, ou embriões não utilizados em inseminação artifical. Crianças sem direito à vida. Elas acreditam serem clones de pessoas marginais porque a elas era negado direito de manifestação. De algum outro ser, elas vieram.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Eu não tenho paciência pra Bergman e Godard. Pra mim, são uma espécie de parnasianismo do cinema. Meramente estéticos. E quando você discute cinema em comunidades e fóruns de cinema, sempre vai esbarrar com pessoas que simplesmente não sabem diferenciar um filme que é mero exercício de estilo de um filme bom. E isso é irritante, porque elas se contentam em apenas identificar o estilo, acham o filme ótimo, por causa do diretor e não conseguem analisar o principal, que é o argumento.

Um exemplo disso é o cinema espanhol, que todos identificam, principalmente, nas figuras de Almodóvar e Bigas Luna, diretores que lançaram os atores espanhóis mais famosos da atualidade: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Javier Bardem, Victória Abril, Rossy de Palma, etc. E que o estilo pelo estilo não vale a pena, porque o cinema espanhol, que é top dos melhores cinemas da atualidade, só evoluiu depois que o Almodóvar achou que seus filmes já estavam se tornando cafonas e fez o “Tudo sobre minha Mãe” e, em seguida o “Fale com Ela” (auge dele).

E aí, você, meu caro, fã de Johnny Depp, de “Edward - mãos de Tesoura”, do Tim Burton, que também o dirigiu em “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, “Sweeny Todd”, além dos remakes bosteadores de “A fantástica Fábrica de chocolate” e “Alice”, onde o inverso deve tê-lo envergonhado por ter feito filmes tão sofríveis como “Batman” e “Batman - Eternamente”, claro que você vai preferir o Coringa do Jack Nicholson e o Duas Caras do Tommy Lee Jones a Heath Ledger e Aaron Eckhart, respectivamente, porque você não consegue distinguir que os perfis dos personagens são completamente diferentes que a visão do Christopher Nolan é muito maior que a capacidade interpretativa dos atores. Você praticamente teve dois grandes atores fazendo papéis infantis. Tudo porque Tim Burton, nas suas limitações criativas, só consegue fazer filme “pseudo terror- infantil- noir”, onde o máximo que ele consegue é fisgar público com mentalidade adolescente, que posteriormente vira fã e transforma duas belas porcarias em filmes cults.

E é engraçado falar do Tim Burton, que você se lembra da Helena Boham Carter, que também atua como esposa do mesmo na vida real, sendo que o melhor filme dela foi um dos poucos que ele não dirigiu, Clube da Luta, conhecido também como aquele que enfatiza a discrepância de atuação de outro Edward – o Norton-, do Brad Pitt, que interpretam a mesma personagem. Filme do David Fincher, diretor que tem 100% de aproveitamento. Todos os filmes dele são bons. Em comparação há outro David, Lynch, que é o diretor mais superestimado da história do cinema, com seu filme MEDÍOCRE “Cidade dos Sonhos” que todo pseudo intelectual metido a Cult adora dizer que é o melhor filme da vida, filme que foi feito pra não ser entendido e ele entendeu. Diferente de um outro David, Cronemberg,um dos diretores mais inteligentes do cinema atual, que tem uma carreira extremamente alternativa. Fez dois filmes que, pra mim, tem valor científico, na área médica mesmo, tamanha a seriedade, sensibilidade e perfeição que ele aborda a esquizofrenia sob o ponto de vista do paciente (Mistérios e Paixões) e de terceiros (Spider).

Enfim, eu fiz essa ciranda toda pra tratar de estilo e talento de diretores e qualidade de filmes com o que falam os pseudo intelectuais de cinema, que me irritam tanto, porque invalidam qualquer discussão a respeito da temática dos filmes e acham que entendem mais os filmes que o próprio diretor. Têm o diretor como um gênio e muitas vezes ele não é.

Não esqueci que eu comecei tudo com o Almodóvar só pra terminar dizendo o que muita gente não sabe: o Almodóvar não tem formação acadêmica. Ou seja, a maior referência do cinema espanhol da atualidade era pobre e aprendeu na prática a fazer bons filmes, sendo copiado por um monte de gente que estudou pra copiá-lo quanto a estilo. E, muitas vezes, a carreira de um diretor é mais tomada pela forma como ele produz, na maior parte das vezes somente pra ganhar dinheiro, do que, propriamente pela qualidade da obra. Grandes diretores têm o currículo menos quantitativo que copiadores porque o público a que eles se destinam é o que pode apreciá-los e não necessariamente o que pode consumi-los.

Ficou superficial, eu sei, mas eu quero tratar mais de estilo e estética num próximo post, vou diferenciar os dois movimentos que eu mais critico: Nouvelle Vague e Dogma 95.

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