quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Não matarás



É um filme sobre o advogado. De como ele se vê na profissão que, apesar de ser uma função social, quanto mais se dedica à ela, mais se conhece as pessoas. E, apartir daí, a gente já não sabe mais dizer se quer ou não ser um. Não se trata de violência apenas, mas de individualismo e de falta de sensibilidade.

O filme trata de três personagens: o advogado que se forma e pega seu primeiro caso; o cliente, um rapaz de vinte anos que mata um taxista e o taxista, que depois de ter tanta sorte e ganhar dinheiro na vida - e guardá-lo só para si-, teve o azar de um dia ser vítima. Os três personagens são retratados da forma como percebem os outros e de como se comportam socialmente. O advogado é um exemplo de ser humano: ético, percebe as pessoas em volta, gentil. Ele compartilha tanto sua felicidade como é solícito. O taxista vê as pessoas em volta, mas faz questão de ignorá-las. E o assassino, Jasek, é filmado como se todos fossem pano de fundo, ele é solitário. E se vê assim, como um abandonado pela sociedade. E daí, ele não se sente no dever de ser ético com ela e faz questão de ser o contrário. Nisso vítima e assassino são idênticos. Só que o taxista teve opção e Jassek, aparentemente, não. E ele é vítima de pessoas que ele ignora, o que não deixa de ser uma conseqüência de seus próprios atos.

Kieslowski segue o mesmo raciocínio do filme "Não amarás", das ações tomadas em uma direção a um conflito insolúvel. De forma que há sempre a opção de parar, pois percebe-se, de imediato, ao vivo, as conseqüências das ações e, mesmo assim, o ator não pára. E o questionamento passa a ser a respeito de a partir de que ponto tudo poderia ser diferente. Aonde fica a responsabilidade de um e de outro. Quem faltou com quem, e a que ponto as conseqüências das ações afetam que mas praticou.

Ao longo do filme, o diretor vai colocando diversas situações em que ser ético, faz a diferença. Mas somente sob o ponto de vista dos dois personagens sobre os quais se estrutura o tema do filme. E de como pequenos gestos poderiam mudar toda a estória.

No início, o taxista - que ganhou várias vezes na loteria e vivia como taxista, guardando o dinheiro só pra si, omitindo da esposa- arranca com o carro deixando pra trás um casal no frio, com quem ele havia combinado a corrida, que o aguardavam terminar de lavar o carro. Depois, de assustar cachorrinhos, negar-se a levar um bêbado no carro, tem o assassino em seu carro. Morre pedindo piedade ( que não deixa de ser um gesto de gentileza).

O assassino é todo politicamente incorreto, mas como reflexo tem uma sociedade que o isola, por opção, por sua aparência. E nota-se bem a má vontade das pessoas desde um pintor de rua até uma senhora que dava comida aos pombos que pedia para que saísse pois os assustava. Os dois únicos gestos de gentileza dele vêm de uma brincadeira que faz num café com duas pré- adolescentes e com uma namorada (casada) a quem havia prometido dar um passeio nas montanhas. No final, que se sabe que ele foi banido da vila onde morava porque sua irmã havia sido morta atropelada por um amigo seu que antes de dirigir o trator que a atropelou, bebera com ele. Pede pra ser enterrado junto à menina, sua irmã, que representa voltar para o ponto onde tudo dava certo. Eles se separaram,coisas erradas aconteceram.

E no final, depois de toda a tragédia, que a situação começa a dizer que só quando um mal acontece que se passa a pensar nas outras pessoas. Que um mal que se pode evitar hoje,a alguém é o mesmo que poderia vir a nós por omissões dos outros. E que o comprometimento tem que ser individual independente de quem seja o outro. "Fazer o bem não importa a quem" é o mesmo que ser correto com os outros é acertar consigo mesmo. E o advogado fez o melhor que pode: "como advogado e ser humano". Mas não estava nas mãos dele decidir. E ainda assim, ele se sente responsável. Porque ele estava no mesmo café que o assassino no dia do crime, pressentiu o mesmo, mas não via como fazer alguma coisa. E a única coisa que ele poderia e fez foi ser gentil, por estar diante de um ser humano.

Então, da mesma forma que a violência é natural do ser humano, a gentileza também é.

"Não matarás" é "A short film about killing", 1988, Krzisztof Kieslowiski.

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