segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Não amarás (com spoilers)


Antes de julgar, procure entender o outro lado. O filme tem a estória mais simples possível. Trata da vingança de uma mulher sobre um voyer adolescente. Mas é muito mais que isso, óbvio. Tomek é um garoto de 19 anos que observa há 1 ano uma mulher, Magda, que mora no prédio em frente. No início, era coisa de garoto, ver pessoas fazendo sexo, mas depois ele passa a tomar parte - anônimamente- dos seus sofrimentos, de como os homens a viam e de como ela os via. Até que um dia ele toma coragem, se declara e conta tudo.

Isto posto, deve-se dizer que, tanto diretor como a atriz, não entenderam como as pessoas o viram como uma estória de amor. É sobre a vingança de uma pessoa que não acredita no amor contra outra que a ama, mas demonstra de um lado não muito ético. E até egoísta, porque, quase sempre, o amado é idealizado e objeto e conduta se confundem. Amar é também ser obcecado por alguém, focar-se nele sem preocupar-se como o mundo vai perceber suas ações. Mas sempre quem ama tem a gentileza e a sensibilidade como princípios de abordagem, que podem até ser confundidas com subserviência pelo amado. E, neste caso, não correspondência.

E após dizer que a ama, ela pergunta o que ele quer dela. A resposta é sempre"nada". O motivo de ele entregar-se a ela é justamente a sua percepção de que ela precisava de alguém e não o tinha. Ele a via com os namorados, sua submissão, as ofensas que ouvia, como aceitava que ofendessem sua dignidade e depois o quanto sofria. O que os homens queriam dela era sexo e ela se via assim, como objeto sexual, não como uma pessoa que quisesse um gesto de gentileza. E ela o vê pelo lado que ela conhece dos homens, se vinga, humilhando-o, tratando como pervertido, oferecendo-se a ele inclusive. E ela gosta de ser vigiada. O rapaz, desiludido, tenta suicídio.

Do outro lado, Tomek tinha a mãe de seu único amigo. Alguém que olhava por ele. Cuidava, zelava, dava-lhe amor. Gratuitamente. E ela passa até a cumprir com as tarefas dele, enquanto ele se recupera. Ela o salva. E através dela que Magda vai perceber o quanto foi tola e desperdiçou a chance de ter alguém que olhasse por ela. O quanto não estava sozinha e que, caso cedesse à depressão, estaria a salvo. Ela vê pela ótica dele e entende o porquê de seus gestos e os raros momentos em que ele se fazia presente : nos bilhetes que enviava a ela pra que fosse receber uma encomenda no correio, onde ele trabalhava; das cartas de um ex- namorado que ele interceptava, não deixando que lhe fossem entregues ( o que a fariam sofrer); do emprego de entregador de leite que acumulou somente para vê-la; dos telefonemas que ele fazia sem dizer nada. Num deles, ela o insulta e ele liga novamente e lhe diz: "Sinto muito". Ela achava que ele olhava pra ela, mas ele olhava por ela.

É o típico filme de estória trágica de amor. Não tem o fim trágico, mas nada mais triste do que amar e entender o amor de alguém tarde demais. E o amor só é compreendido, quando um dos lados se põe no lugar do outro.

É polonês, dirigido por Krzysztof Kieslowski, o nome em inglês é "A short film about love" e é de 1988.

*Lendo sobre o filme, descobri que este também faz parte da série de curtas para TV intitulada Decálogo e é uma versão estendida. "Não matarás" é o outro filme que também teve essa versão estendida. A versão original termina com o suicídio. E é um filme de visão católica. A idéia do diretor é a de fazer com que as personagens só percebam o tema do filme, quando estão diante de um conflito insolúvel. No caso, Magda não acreditava no amor. Sua vida muda quando percebe a existência dele, mas, quando finalmente pode fazer algo, é tarde. Então, na série, o rapaz se suicida, e acaba o filme. Mais sombrio. A bela cena final é da versão estendida, a pedido da atriz, pra dar uma versão light. Mostrando que a Magda cedeu e passou a acreditar no amor. É uma metáfora de como a falta de amor nos faz cegos e da mesquinhez dos sentimentos de vingança.

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