terça-feira, 10 de junho de 2008

Identificação literária


Serão , a princípio, duas partes dedicadas a Arthur Schopenhauer. Uma sobre ele e outra sobre o livro "A Arte de Escrever". Pra mim, é uma referência. E, na sua época, não era relevado. Faziam sucesso os escritores da moda, que confundiam o leitor por não terem algo a dizer e pela falta da objetividade. Estes eram os eruditos, não pensadores.

Schopenhauer achava que bons pensadores não eram percebidos pela sociedade justamente pela desvalorização do aprendizado e pela perda da identidade lingüística . Coisa que já está banalizada hoje em dia. Uns chegariam agora e diriam que ele era elitista, mas ele não era nenhum pouco. Sobre o que ele falava, tratava de forma simples. Qualquer pessoa poderia entendê-lo. Ele discordava da mediocridade do tratamento dado às ciências. Em detrimento delas, buscava-se dinheiro. E disso originou-se as más traduções, banalização da escrita, aparecimento de maus escritores, multilações da língua. Para se discutir e pensar algo, era necessário passar por etapas, aprender línguas universais, como o latim, o grego, alemão, para que o leitor não ficasse refém da observação alheia, ou seja, do tradutor. O mercado visava dar acesso à pessoas que não saberiam utilizar o conhecimento adquirido, não poderiam assimilá-lo, porque não dedicariam a ele o tempo necessário para que o fosse incorporado. Disso, acabou resultando uma endemia de maus escritores que queriam utilizar-se de suas obras pra diferenciarem-se do povo, não acrescentar culturalmente.

De fato, é uma tolice incomensurável essa universalização de conteúdos, sem qualquer hierarquização. É um processo errôneo, que queima etapas necessárias ao bom entendimento. E de nada adianta pegar milênios de conhecimento acumulado, desorganizá-lo, por não estudá-lo com profundidade. Ter apenas o conhecimento por tê-lo, , sem ao menos gerar um pensamento próprio e reflexivo sobre o que foi lido, apenas materializado num título. Metafóricamente, como ter uma grande biblioteca desorganizada. Melhor uma pequena bem organizada.

E isso que se verifica: títulos que dão dinheiro, professores que que se esforçam pra vender uma sabedoria que aparentam ter, e, alunos que buscam títulos, pra se tornarem importantes. Em nenhum dos dois casos, é visto o conhecimento genuíno ou pessoas a serviço dele.

Também se vê a injustiça com os verdadeiros pensadores - caso dele- que só têm suas obras verdadeiramente apreciadas depois de mortos. A sociedade cria um sistema de ensino a partir da imagem do erudito, daquilo que é dotado de preciosismos, floreios e alusões. Impopular. O verdadeiro e simples, muitas vezes considerado ingênuo, de quem tem algo a dizer perde espaço para o sofisticado que mais confunde do que acrescenta.

"A Arte de Escrever" é um desabafo. Uma crítica gerada pela inconformidade com tamanha barbárie e sacrifício do saber. E uma afronta a esses pseudo-pensadores, que vulgarizaram o estilo da boa escrita e o dom mais nobre do ser humano : o raciocínio.


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