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quinta-feira, 12 de junho de 2008

" A Arte de Escrever"


Trata-se de um compêndio de ensaios da obra "Parerga e Paraliponema". De forma muito bem humorada, ele vai criticando os escritores, seus etilos, construções de frases, etc.

Ele começa tratando do fato de as pessoas verem o conhecimento como forma de se ganhar dinheiro e status. Ler tornara-se uma arte que visava acúmulo de leitura sem digerí-la. Para os professores, bastava aparentar sabedoria pra vendê-la a alunos que mais queriam tagarelar, obter um título ficto que lhes dava, perante a sociedade, a presunção de serem pensadores.

Com isso, a ciência passou a ser realizada em função de uma outra coisa qualquer. Vieram as traduções que abreviavam a leitura, tornando desnecessária a evolução do pensamento original. Houve desvalorização da linguagem universal e completa, o latim; submissão ao pensamento dos tradutores e falsos-pensadores; e a vulgarização da língua nacional (no caso, o alemão). O pensamento individual, que a princípio só tem importância pra própria pessoa, era renegado por se ter um livro em mãos. Em vez da identificação do pensamento com as autoridades, pensava-se a partir delas. De onde, então, ele cita Lúcio Aneu Sêneca (65 - 4 a.C): "Qualquer um prefere crer a julgar por si mesmo".

Esta primeira parte é importante porque trata do princípio da filosofia relacionado à Antigüidade. Trata do antagonismo pensar por si (verdadeiros filósofos) x pensar para os outros (sofistas). Aqueles que escrevem em função do assunto e aqueles que escrevem por escrever respectivamente.

Quanto à escrita e ao estilo, o pensamento vai de encontro àqueles que "melhoram" escritos de autores anteriores. O livro é a expressão de pensamentos do autor, cujo valor se dá pela matéria (sobre o que se pensa) ou pela forma (como se pensou sobre a matéria). Da primeira, extrai-se o empirismo, que sempre será importante, porque tem por matéria fatos históricos tomados por si mesmos ou num sentido mais amplo. A particularidade dessa literatura não está no autor, mas no objeto.

Mas quando se trata da forma, a particularidade está no sujeito. Para ele, quanto menos se deve à matéria, mais mérito tem o escritor. Pessoas que são célebres, pelo talento e forma que escrevem, tornam a matéria ao alcance de todos. "O que torna o homem capaz de conversar bem é a compreensão, o critério, humor, vivacidade que se dá à conversação quanto à sua forma".

As pessoas empiristas tratam de temas sobre os quais apenas elas têm acesso. Elas debatem e escrevem artificialmente. E ainda têm sua conversação voltada sobre a matéria, restringindo suas qualidades formais, por concentrarem-se naquilo que têm mais contato: o tema. E aí, qualquer um pode falar, desde que o tenha lido.

Aí, ele cita um ditado espanhol: "Mais sábio um ignorante em sua própria casa que um sábio em casa alheia".

Quando existe a necessidade financeira como foco, os escritores apóiam-se mutuamente porque o interesse é comum. O povo e a elite ignorante preferem a matéria, ainda que isso implique numa desvalorização do escritor como ser pensante. É o fácil - pragmático- e nada mais fácil do que ser erudito. Expressar o pensamento de forma que poucos o entendam. "Estilo" reconhecido a partir dos neologismos, alusões, antonomásias, fórmulas forçadas. A pessoa é conhecida por aquilo de que trata e quer parecer mais do que realmente é.

Já o pensamento com estilo não é focado no dinheiro (matéria). O estilo é a fisionomia do espírito. Para saber sobre um escritor ou fazer avaliação de sua forma, é preciso saber apenas "como ele pensa". Pra se saber "o que ele escreve" , é preciso ler toda a sua obra. O primeiro é mais importante, porque o mais difícil é justamente expressar pensamentos significativos de forma que todos o compreendam. Ser bem sucedido quanto a isso implica em duas regras (ou constatações): ter algo a dizer e demonstrá-lo de modo claro e ingênuo.

Na última parte, ele trata da leitura, da linguagem e das palavras. E, quanto a isso, a abordagem é técnica, com exemplos de modificações na língua, excessos de orações subordinadas e a falta de vírgulas, de períodos simples. É a ausência de concisão e excesso de prolixidade. O estilo precisa ser objetivo e os escritores que ele critica preocupam-se mais com o que querem e pretendem dizer. O leitor que se arranje em acompanhá-los. E isso, segundo ele, é pecar contra o Espírito Santo.

E conclui apelando para a necessidade de se ler clássicos. E, também, a prática da arte do não-ler, isto é, pensar nos intervalos. A leitura dispensa-nos do pensamento, e, quando recorrente, faz com que percamos a capacidade de pensar. O erudito sofre desse mal. Lê até ficar burro e escreve pela necessidade, sem permitir ter o raciocínio analisado por outrem porque o mascára.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Identificação literária


Serão , a princípio, duas partes dedicadas a Arthur Schopenhauer. Uma sobre ele e outra sobre o livro "A Arte de Escrever". Pra mim, é uma referência. E, na sua época, não era relevado. Faziam sucesso os escritores da moda, que confundiam o leitor por não terem algo a dizer e pela falta da objetividade. Estes eram os eruditos, não pensadores.

Schopenhauer achava que bons pensadores não eram percebidos pela sociedade justamente pela desvalorização do aprendizado e pela perda da identidade lingüística . Coisa que já está banalizada hoje em dia. Uns chegariam agora e diriam que ele era elitista, mas ele não era nenhum pouco. Sobre o que ele falava, tratava de forma simples. Qualquer pessoa poderia entendê-lo. Ele discordava da mediocridade do tratamento dado às ciências. Em detrimento delas, buscava-se dinheiro. E disso originou-se as más traduções, banalização da escrita, aparecimento de maus escritores, multilações da língua. Para se discutir e pensar algo, era necessário passar por etapas, aprender línguas universais, como o latim, o grego, alemão, para que o leitor não ficasse refém da observação alheia, ou seja, do tradutor. O mercado visava dar acesso à pessoas que não saberiam utilizar o conhecimento adquirido, não poderiam assimilá-lo, porque não dedicariam a ele o tempo necessário para que o fosse incorporado. Disso, acabou resultando uma endemia de maus escritores que queriam utilizar-se de suas obras pra diferenciarem-se do povo, não acrescentar culturalmente.

De fato, é uma tolice incomensurável essa universalização de conteúdos, sem qualquer hierarquização. É um processo errôneo, que queima etapas necessárias ao bom entendimento. E de nada adianta pegar milênios de conhecimento acumulado, desorganizá-lo, por não estudá-lo com profundidade. Ter apenas o conhecimento por tê-lo, , sem ao menos gerar um pensamento próprio e reflexivo sobre o que foi lido, apenas materializado num título. Metafóricamente, como ter uma grande biblioteca desorganizada. Melhor uma pequena bem organizada.

E isso que se verifica: títulos que dão dinheiro, professores que que se esforçam pra vender uma sabedoria que aparentam ter, e, alunos que buscam títulos, pra se tornarem importantes. Em nenhum dos dois casos, é visto o conhecimento genuíno ou pessoas a serviço dele.

Também se vê a injustiça com os verdadeiros pensadores - caso dele- que só têm suas obras verdadeiramente apreciadas depois de mortos. A sociedade cria um sistema de ensino a partir da imagem do erudito, daquilo que é dotado de preciosismos, floreios e alusões. Impopular. O verdadeiro e simples, muitas vezes considerado ingênuo, de quem tem algo a dizer perde espaço para o sofisticado que mais confunde do que acrescenta.

"A Arte de Escrever" é um desabafo. Uma crítica gerada pela inconformidade com tamanha barbárie e sacrifício do saber. E uma afronta a esses pseudo-pensadores, que vulgarizaram o estilo da boa escrita e o dom mais nobre do ser humano : o raciocínio.