
Uma vez eu vi uma frase que dizia que ser amigo é querer fazer parte da felicidade do outro. Claro que é incompleta, porque, por muitas vezes, também é fazer parte da tristeza também. Só que é a parte ruim e que ninguém quer fazer. E sobre isso que trata "Em Paris". E que também é tratado em "Não amarás" e "Pai e Filho", filmes do Kieslowski e do Sokurov que eu já comentei aqui.
Paul é a personagem triste. Ele está recém-separado da mulher, Anna, que termina o relacionamento com ele. Ele a amava, ela sabia. Ele percebe que não é mais amado* e tenta ferí-la, mas não consegue porque ela não o ama (mais?)**. E nas relações amorosas, existe o conquistador e o conquistado: aquele que deseja ser amado e aquele que ama. Não necessariamente se correspondem, como é o caso do filme, e aquele que sofre, é o que ama de verdade. E se torna vazio por dar tudo de si ao outro. É este o significado da tristeza que o filme quer dar: momento de recuperação da dignidade. Tal como a dignidade, tristeza faz parte do ser humano como a cor da pupila faz parte do olho.
Jonanthan é o irmão de Paul. Ele é a pessoa que tenta tirar o irmão da depressão. Função esta que o pai lhe delega. E qual a forma que ele encontra pra isso? Demonstrar que a vida é bela e dá suas três trepadas no mesmo dia, enquanto "espera" o irmão encontrá-lo. O inverso do que se deveria fazer. Um amigo quer tomar parte da felicidade, mas da tristeza, que tome um psicologo. Por subestimarmos a tristeza dos outros, não nos é cabível que alguém possa sofrer, por isso, ignoramos e não queremos tomar parte. Não é conveniente compartilhar a tristeza como é compartilhar a felicidade. Da mesma forma que a tristeza é sua parte, você nunca vai saber o que o outro passa, se não se por no lugar dele. Jonanthan narra o filme e ele também percebe ,no final, o que o irmão sente,*** porque é o momento em que ele, de fato, se põe no lugar do irmão. Até então, ele procurava demonstrar o quanto lhe parecia ridículo o sentimento de resgate da dignidade do irmão por si só.
O filme é redundante em diversas situações e demonstra claramente todos os lados. Não toca da mesma forma que o "Não Amarás" (que tem a cena mais bonita que eu já presenciei no cinema) que é o melhor filme sobre amor já feito. E tem a cena final em que é cantada uma música pro telefone, que é um poema sobre a situação, que é a verbalização do que motivou a tristeza de Paul, cantada por ele e por Anna.
Avant La Haine (traduzido)
Saiba, minha linda, que os amores
Os mais brilhantes se sujam
O sol sujo do dia a dia
Submetem-lhes ao suplício
Tive uma idéia inadequada
Para evitar o insuportável
Antes do ódio, antes dos golpes
Dos assobios e dos chicotes
Antes da pena e do desgosto
Vamos terminar, por favor
Não, eu te beijo e isso passa
Você bem sabe
Não se livre de mim assim
Você acredita que vai se sair bem dessa
Me abandonando ao léu
Do grande amor que deve morrer
Mas você sabe que eu prefiro
As tempestades do inevitável
À sua pequena idéia destrutiva
Antes do ódio, antes dos golpes
Dos assobios e dos chicotes
Antes da pena e do desgosto
Você diz para terminarmos
Mas eu te beijo e isso passa
Eu sei bem
Não me livro de você assim
Eu poderia evitar o pior
Mas o melhor está por vir.
Antes do ódio, antes dos golpes
Dos assobios e dos chicotes
Antes da pena e do desgosto
Você diz para terminarmos
Não me livro de você assim
Não me livro de você assim.
Aqui o vídeo:
www.youtube.com/watch?v=nCKihhKniyE
Créditos:
Direção: Christopher Honoré
Elenco: Romain Duris(Paul), Louis Garrel (Jonanthan), Joana Preiss (Anna).
*Isso fica bem explicitado no início do filme em que ela fala que ele estava insatisfeito com ela por 3 razões nas quais ela, premeditadamente, transfere tudo que sente para ele. E a sequência seguinte, fora da cronologia, demonstra o entedimento dele a respeito. Ele sabia que ela não o amava mais e ela sabia que ele a amava.
** Depois que ela elabora o discurso pronto do término, ele joga o travesseiro no rosto dela, que reclama como se tivesse machucado. Ele fica preocupado, pede desculpas e vai socorrê-la. Situação auto-explicativa. Ele podia ter dado uns bofetões nela, porque ela o humilhou, ofendeu sua dignidade, mas para quem ama, o amado está acima de si próprio. Lógico que na vida alternamos os papéis, mas ela sempre quis que ele a amasse. Terminou antes que ele a odiasse.
*** Ele começa perguntando " Que tipo de amor faz alguém se jogar de cima da ponte?". Ele não sabe o que é o amor, mas pelo menos, entende o que é se jogar de cima da ponte. Ele mesmo é amado e não ama.Ele tem o mesmo papel da Anna, mas ele é o irmão, quem está pra (tentar) ajudar, coisa que só a Anna não poderia fazer.
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