terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Sobre os atentados na India

Encontrando o centro da Índia

KARAN MAHAJAN


EU CRESCI na Colônia de Amigos de Nova Déli, nome improvável de uma coleção de mansões fortificadas em que, a cada ano, as pessoas se conheciam menos.
O bairro foi erguido originalmente nos arredores de Déli, mas acabou sendo cercado pelo crescimento urbano do centro-sul da cidade. Em torno desse condomínio fechado de hindus ricos há um grupo de vilarejos com nomes como Zakir Nagar e Taimur Nagar, além dos prédios da famosa Universidade Jamia Millia Islamia: lugares ocupados por muçulmanos trabalhadores, comerciantes, operários e também professores e estudantes universitários -o tipo de lugar sob maior risco ante as reações enfurecidas após os ataques terroristas islâmicos desta semana.
Digo isso não apenas porque a vingança é algo estúpido e injusto, mas porque tenho a mentalidade do agressor hindu instruído e posso antever a forma que tais ataques tomariam. Cresci em meio aos valores pluralistas e "seculares" pregados nos livros de Educação Cívica usados em sala de aula e sou defensor firme do islã, mas tenho consciência de que não conheço muçulmanos e que minha atitude de esquerda pode ser facilmente modificada ou mesmo quebrada por fatos que me atinjam mais de perto, como os desta semana.
Como lido essencialmente com noções românticas de diversidade -de que nós, indianos, precisamos todos aprender a conviver uns com os outros-, ao mesmo tempo tendo crescido apenas com outros hindus de classe média como eu, atrás de portões que me separaram até mesmo de meus vizinhos islâmicos, posso trocar uma abstração (os muçulmanos como minoria explorada) por outra (os muçulmanos como fanáticos natos) com facilidade. Os muçulmanos que vivem em meu quintal podem, em minha cabeça, passar de trabalhadores a terroristas em um só segundo, se eu quiser.
A possibilidade de tal transformação em pessoas como eu me preocupa neste momento angustiante. Se eu, um indiano de grau de instrução superior que vive em Nova York, longe das vísceras e do pânico da violência, me sinto abalado pela chegada do terrorismo islâmico aos bairros mais elegantes de nossas cidades; e se eu, um esquerdista e livre-pensador, sinto a espécie de desconfiança em relação a muçulmanos que senti por um instante após a medonha quarta-feira, então estou certo de que o mesmo pode se aplicar a muitos e muitos outros esquerdistas em meu país.
E, se isso for verdade, então os muçulmanos da Índia estão numa posição em que a maioria de seus defensores obrigatórios na sociedade, mais notadamente na mídia, pode estar perdida.

Papel para a mídia
A imprensa liberal, sobretudo TVs e jornais em inglês, é criticada constantemente por ser "pró-muçulmana", mas tem atuado como corretivo necessário num país polarizado. O canal NDTV, com seus âncoras de Oxford, e a revista "Tehelka", com seus jornalistas investigativos cosmopolitas, destemidos e do contra -que escrevem romances afrancesados como atividade secundária-, reforçaram sua reputação ao expor o apoio nacionalista hindu ao governo que levou ao massacre de muçulmanos nos tumultos de Gujarat, em 2002.
Eles têm um viés de esquerda inegável. Mas também, em certo sentido, são comprometidos com noções de objetividade, conscientes e fartos de seus próprios vieses e, portanto, numa situação em que alguns de seus redatores podem pender para a direita por simples constrangimento -como pode seu apoio barulhento aos nobres muçulmanos ter levado a isto? O resultado de uma oscilação como essa seria devastador.
Quando a mídia e os jornais americanos de esquerda, induzidos a cobrar contas patrióticas na esteira do 11 de Setembro, primeiro decidiram apoiar a guerra no Afeganistão e depois no Iraque, eles inadvertidamente saudaram cinco anos de desastre. Se a mídia indiana da esquerda decidir não ficar de olho na maioria hindu enfurecida, vamos não só desperdiçar uma de nossas armas democráticas mais fortes -uma cultura jornalística cética- como também, possivelmente, agravar qualquer vingança que ocorra em casa contra muçulmanos. E, diferentemente dos americanos, que estão travando suas guerras longe de seu país, nós teremos que viver bem no meio de nossos fracassos como país.
A solução está na paciência, que deve parecer algo pouco razoável de se pregar, na esteira de uma série de explosões de bombas desde 1997 que perde só para a Guerra no Iraque em baixas. Mas é a única solução. Eu admirei a paciência de meus conterrâneos quando estive na Índia recentemente, em outubro. Admirei o taxista em Jaipur que me contou que os negócios estavam em baixa desde os atentados de maio, mas que as coisas ficariam bem porque as estradas estavam melhorando. Admirei o sacerdote irascível em Ahmedabad que exibiu seu santuário antes de fechá-lo mais cedo, por ordem do governo, nos dias potencialmente perigosos antes da festa de Diwali.
Admirei a calma vitrificada dos sobreviventes, na TV, de uma explosão num mercado de flores de Déli onde costumo parar a caminho da casa de minha avó. Homens, mulheres, crianças, policiais -todos estavam alertas, e, passando pelos bairros de Zakir Nagar e Taimur Nagar a caminho de casa, eu me senti grato por ninguém, até então, se sentir impelido a buscar vingança.
Agora, sem dúvida, terá início uma das maiores repressões ao terrorismo na história indiana, e ela envolverá todos nós, queiramos ou não. Para manter sua sanidade, as pessoas terão de ter fé nas ações de seu governo, o governo terá de ter fé em sua capacidade de sufocar o terrorismo sem incentivar tumultos liberadores de tensões, e sob o horror, será dever dos jornais ajudar essa fé sem perderem a fé em si mesmos.

O romancista KARAN MAHAJAN é o autor de "Family Planning" (sem tradução no Brasil). Este artigo foi distribuído pela Wilye Agency

Tradução de CLARA ALLAIN

*Publicado na folha neste domingo, dia 30-11.


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