segunda-feira, 19 de maio de 2008

A Hora da Estrela


A vida tem dessas coisas: de você ler um livro e tentar se identificar com os personagens. E eu li o livro da Clarice e tentei me ver ali na estória. Bom, a Macabéa é uma projeção do autor (personagem masculino que narra a estória). E é retratada da forma que os outros a vêem. Como uma pessoa medíocre, sem ambições, uma pessoa que representa o nada. Ela é o contrário da sociedade, ela é a pessoa que se satisfaz em ser ela mesma e não questiona sua existência. Ela simplesmente existe. O narrador - e a própria Clarice- resiste ao que a sociedade prega como válido: a riqueza, um título, um cargo político, que, não necessariamente, as pessoas sabem o que é.

E partindo do não saber, vemos a importância da visão em 3D. Macabéa não queria ser mais, não tinha a visão à frente, mas questionava o que estava perto. Ela não entendeu o nome do Olímpico, o namorado galanteador e orgulhoso do próprio nome. e perguntou o porquê quando ouviu. Desarmou seu dom político de quem não diz nada, por ela se prender à literalidade das coisas. A única referência cultural dela era a rádio-relógio. "Cultura, é cultura, ué".

Quando o namorado termina, ela entende, e ri por não ter se lembrado de chorar. Ri dela mesma. E o ele pensa que foi por nervosismo. E ainda a troca pela amiga dela, porque é gorda, por parecer ser boa mãe. Tal como a sociedade machista, do homem escolher a mulher e ela, pensando que sabe o que quer, na verdade, se submete a ele.

E daí, dentre vários aspectos, fica clara a intenção de que a Macabéa não pensa na morte. Não vê sentido em ceder como os outros cedem: o namorado, ao desejo de ser deputado e ser chamado de doutor e, pra isso, rouba tudo que pode dos outros; a cartomante, ex-prostituta e cafetina que "deu o que era dela" e especializou-se em enganar as pessoas pra ter riqueza e ostentá-la; a amiga feia que lhe rouba o namorado por (querer) achar-se bonita, atraente e desejada. Ser o que não é, roubar e enganar os outros -ou a si mesmo- pra ser alguém perante a sociedade. Ela resiste a tudo isso desde quando nasceu e quando finalmente cede ao mundo, ela morre.

Agora, me posiciono. Não tenho ambição por grandes coisas , mas tenho. Não tento entender a minha existência, mas procuro fazer com que os outros me entendam. Nunca me preocupei com meus próprios argumentos, mas com o que as pessoas tenham a dizer. Em determinados momentos, também vejo a verdade sozinho, vinda de mim mesmo. E reflito sobre ela. Tento até compartilhar o que sei com os outros, mas sou visto como a Macabéa: um nada, sem importância.

A questão, pra mim, é a oposição, que veio com idade, entre ser pragmático e idealista. Sempre vejo as coisas assim primeiro. Ou eu sou o que eu sou e tento entender o mundo, fazendo com que ele me entenda; ou eu cedo a ele, e passo a ser o que ele espera de mim. O certo ou o fácil?

Talvez aí esteja o sentido da existência que a Clarice quis transmitir. Pelo menos pelo que eu entendi. Quando você se espelha no mundo pelo que te falta, ou, pelo que ele espera de você, você até pode sentir-se satisfeito, mas, na verdade, terá abandonado sua essência, sendo modificado por ele. E o ser, com o sentido de existir, está na diferença. Desta forma, o mundo te percebe, ainda que o rejeite. Seguindo a tendência, tendo seu referencial a partir do que os outros querem que você seja, você se tornará um igual. Isto é o mesmo que deixar de existir, embora, esteja vivo. E morrerá como se nunca tivesse existido.



* Essa coisa da complexidade das moléculas, da célula que integra o corpo. Das palavras o texto. Uma metáfora que quer dizer que ser igual a sociedade é integrá-la, formando um sistema. Uma célula, para um corpo, não significa nada. Ratifica a uniformidade. Mas um corpo estranho, até menor que uma célula, mobiliza tudo , pra ser atacado e expulso dele. Por isso, a sociedade ataca o diferente, pra evitar que ele se multiplique e se fortaleça.

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