sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Os Famosos e os Duendes da Morte


Bom, eu sou um daqueles que têm preconceito em relação a cinema brasileiro. E exatamente por isso que eu evito falar sobre, embora até assista com certa regularidade. Tem dois excelentes que vi este ano e de um deles, falarei hoje, um premiado, gaúcho. Trata-se de um tema delicado pelo qual passam muitos adolescentes, eu inclusive ainda passo por isso: o não cabimento na própria comunidade. Fala do Mr. Tambourine que fica na internet, fã do Bob Dylan, escreve poesias e vê seu destino espelhado num “cara estranho” que namorava a irmã de um amigo seu, que eram como ele. O filme tem uma fotografia sensacional. Tem erros de continuidade, aquele aspecto de cinema amador, mas tem um argumento sensacional. Foi dirigido por um garoto, de 27 anos, que fez um filme que, sensação igual, só tive com Gus van Sant, com o sensacional "Elephant" e com o "Paranoid Park".


O filme tem uma narrativa lenta, atuações muito boas, com pessoas nativas, que nunca haviam tido experiência em atuar. Sem falar na protagonista que não fala no filme, Tuane Eggers, lindíssima. Ela está na lembrança do protagonista. Ela tinha um blog na internet, onde exibia fotos sozinha, com o namorado, foto-arte, etc.


O filme narra fatos cotidianos, onde o telespectador vai se transportando, se identificando com o personagem. Nesta cidade do interior, tem uma população descedente de alemães, isolados, e uma ponte que tem uma grande representatividade: liga aquela cidadezinha do Mr. Tambourine ao mundo, que as pessoas, por medo e comodismo, não ultrapassam. Segundo ele: "foda é imaginar que do outro lado (da ponte) não existe nada". Uma vida que passa sem grandes acontecimentos gera depressão em alguns e a sensação de impossibilidade de ser feliz. Muitos dos habitantes da cidade tentaram suicídio naquela ponte e as pessoas tomaram como normal. O protagonista não, ele queria sair de lá pra ver o show do Bob Dylan. Queria uma aventura. Seus amigos de verdade , as únicas pessoas que o incentivam a sair de lá, são virtuais. Falavam-lhe que "triste é não poder viver do jeito que se quer".


E tem a mãe dele, viúva, que conversa com a cadela e a trata como se fosse uma pessoa, que chama o filho pra visitar o pai morto . Ele não vê sentido, não compartilha daquela vida. E aí que ele se aproxima do cara, namorado da irmã do seu amigo e este cara mostra pra ele uma visão diferente de quem cruzou a ponte evoltou . Ele vê que as pessoas não conseguem se desvincular. A mãe dele fala num momento "depois que seu tempo passar, você vai se dar conta de que seu tempo é aqui".


Enfim, é um filme com várias referências, com argumento muito bem trabalhado, cinema autoral, requer paciência, um diretor estreante, que, na minha opinião, se mantiver esse nível, vai ser um dos maiores do país de todos os tempos. E o filme foi baseado no livro, do cara, referência do Mr. Tambourine: Ismael Caneppele. O diretor: Esmir Filho.


E eu termino com a frase da semana, do Guimarães Rosa, que serve muito pro filme "A gente pensa que vive por gosto, mas vive por obrigação"

Um comentário:

disse...

Gostei, quero ver!
Só me desanimou a menção s Gus Van Saint.